Último post, para Stella

Esse último post é, na verdade, um anti-post, pois não se enquadra nem se arredonda no spiritu do site. O caso é que detesto encontrar sites fora de uso mas ainda ativos, assim como endereços ou domínios maravilhosamente simples, como http://www.maria.com, ou angelita@yahoo.dm, e que não são usados e ocupam possibilidades alheias… Fecho o endereço. Já vi outras pessoas usando a expressão “desconfiosofia”. Já? Sei lá! Mas não é uma expressão genial, sabemos: desconfiômetro, por exemplo, abunda pelo mundo lusófono!

Gosto do brilho dos teus textos, li três deles, e o que menos me prometeu, pelo título, mais me humanizou, Stella: TDAH. Ali aprendi a palavra “hiponga”. E me veio uma ponta de vontade de ler algum pedacinho do Percy Jackson… Quem sabe eu peça à minha filha, a quem dei um volume? Pensando bem, não sei se foi a ela que dei. É tanta gente querendo ganhar livro meu pra ostentar!

– Vando, curte a minha foto?!                                                                                                               – Você está bonita nela, já estou dizendo”, respondo.                                                                      – Tá, mas curte, por favor!!”

Às vezes eu curto. Às vezes dou o livro, que fazem questão de deixar que as outras vejam, na página da dedicatória, “sem querer!” Aff. Mas eu entendo. Eu, porém, enquanto aluno, te vi sempre uma boa profissional – e meu olhar deve ter um pesinho a mais, porque sou professor também. :] Queria ter visto uma das cenas que descrever em TDAH, a cena do desinfetante no bolso! Eu poderia efetivamente representá-la de propósito, eu que antes de chegar ao trabalho, retiro da bolsa uma caneca e peço café no boteco, e vou andando com a caneca pra escola. Às vezes me chamam “o professor da caneca”, nos inícios de períodos letivos anuais. Às vezes acham que sou bicha (eu gosto dessa palavra de escândalos, bicha); às vezes sou macumbeiro; só não chegou, até hoje, porém, minha hora da Stella: imagine, eu de travesti e com o nome de Stella! Acho um bom nome! Olha Almodóvar baixando… hora de mofar!

See you, girl. Bye!

Advertisements
Posted in Uncategorized | 3 Comments

É Natal, vamos ao shopping, vamos comer e beber!

>Quando a banda punk Garotos Podres escreveu Papai Noel, Velho Batuta, eles entenderam que o coroa presenteava os ricos e cuspia nos pobres (ignorava-nos). Soa estranho isso hoje, ao menos no Brasil, e além disso saiu de moda chamar alguém de “porco capitalista”, ou do mal pronunciado e incompreendido “chauvinista”. Nos dias atuais, justamente por seus interesses financeiros é que Papai Noel sabe que deve ir a orfanatos, promover o Criança Esperança e subir as favelas para distribuir presentes, com as vantagens de aparecer gratuitamente nas colunas sociais e na tv, promover sua marca e suas empresas com o mesmo custo, deduzir de seu imposto de renda os gastos e, às vezes, até mais que o que gastar com os presentes. Papai Noel agora é mais malandro e, além disso, os pobres do Brasil já não são tão pobres, já têm acesso a automóveis novos, para desespero de alguns que, como o jornalista Luiz Carlos Prates, inqualificável, não querem com eles dividir as auto estradas. Não o chamarei de FDP justamente porque tal qualificação seria xingar as putas e não a ele; e as putas ficariam putas comigo! Os shopping centers estão de portas abertas esperando por nosso dinheiro, lindos em luzes, “velhos batutas” com aquele idiota “rôu! rôu! rôu!”, que eu não imagino de onde saiu, renas e guirlandas; há shoppings que até instalam aparelhos para fabricar “neve” – tudo para atrair clientes e vender mais. A “noite de natal” e a seguinte deve ser a noite em que se batem os recordes mundiais de desperdício de comida. Obviamente, é melhor você desperdiçar comida que não ter o que comer. O desperdício é um símbolo de fartura, ainda que muita gente gaste todo um salário do mês comprando presentes e com essa “fartura”… Aliás, ela precisa ser ostentada, especialmente nessa época, sob pena de vergonha social e comentários maledicentes. A propósito, é difícil pensar que o que eu desperdiço, comprado com o meu dinheiro e o suor do meu trabalho, tenha alguma relação com as necessidades que os outros passam “lá, bem longe”. Afinal, eu não sou obrigado a fazer doações de comida ou dinheiro ou o que quer que seja a quem quer que seja. Contudo, essa relação existe. Consideremos que 30% de toda comida produzida no mundo é desperdiçada, e a maior parte disso não ocorre porque os alimentos estragam antes de chegar à mesa, mas depois das refeições. Imaginemos então que, se em vez de desperdiçar 30% o fizéssemos com apenas 10%, ou 5%. O cálculo nem é tão complicado: se comprássemos 20 ou 25% a menos, será que os preços não seriam menores, de modo a atrair os que pouco compram, ou mal podem consumir, ao mercado? Essa é uma lógica similar à dos boicotes a produtos e marcas, por exemplo: o produtor precisa se adequar à demanda. Nessa época também consumimos um monte de porcarias hiperadoçadas, que trazem prejuízos à nossa saúde, desde os dentes até às taxas hormonais e de peso. Muitas dessas coisas são importadas, o que não interessa à balança comercial do país – com a qual não nos importamos quando compramos importados americanos, chineses ou japoneses. Aliás, quem sabe ou quer saber que raio é uma “balança comercial”? Não é a balança do feirante, ou a do supermercado? Bem, o que importa mesmo a muita gente é “fazer a dieta” depois do revéillon. Antes disso, esgotam a paciências de outros falando em dieta e IMC… enquanto comem panetone, chocotone, bolotone, e assim por diante. Fico imaginando como foram os tempos em que Dezembro era lembrado por seu sentido religioso e pela ideia de fraternidade, e não como o mês das compras, em que o comércio mais vende – tanto que temporariamente contrata funcionários extra -, o mês em que mais se come, e o mês em que mais se bebe. Dizem também ser um dos meses em que ocorrem mais assaltos, pois bandidos também precisam de dinheiro (como todos acreditam que precisam de) para comemorar o natal. É o cúmulo do absurdo: o F&%$*&##$ vai assaltar porque necessita de dinheiro para comemorar o nascimento do Cristo! Cada um com suas manias, mas com muito em comum; uns roubam, outros entram em coma etílico; outros vão ter enfartos um ou dois meses depois por conta do que fizeram com o corpo em Dezembro; alguns se endividam para celebrar o natalício de um homem pobre que, às vezes, catava frutas das bordas dos pomares alheios (equivalente ao atual catamento da sobra da feira). Curiosamente, seu povo tinha o hábito de deixar alguma coisa pendente nos pomares para os miseráveis recolherem… Eu nada tenho contra comida e bebida, até porque adoro comer e beber. Não sou contra presentear as pessoas, pois gosto de receber e dar presentes. Também acho que cada um pode fazer o que quiser com o próprio dinheiro, o próprio corpo, e eu também vou às compras sem pensar na balança comercial do país, ou no controverso superávit primário. Entretanto, tudo isso pode ser objeto de reflexão. Se o sentido do feriado é comemorar o nascimento de Jesus, eu penso que as pessoas, mesmo fazendo tudo isso a que me referi, em diferentes graus de ação e omissão, poderiam também graduar com justiça suas atitudes em relação a tais fatos. As crianças são doutrinadas nessa atitude cultural, e a cultura diz quem nós somos, quem eu próprio sou, ainda que eu mesmo não comemore o natal; mais que isso, ela determina, em parte, quem seremos, atráves dessas crianças a quem damos tantos hambúrgueres – sem nos interessarmos por seus processos da fabricação – e tantas Barbies – a despeito de nosso biotipo ou do delas. Outra coisa absurda é experienciar todo esse frisson natalino sem pensar no motivo da festa, por “menos cristão” que você seja. Obviamente quem não é, de modo algum, cristão, não tem porque comemorar essa data. Mas para quem é, o momento pode ser de refletir, e não de se alienar ou de alienar os outros, como as crianças. Jesus não era um alienado político ou religioso, era um homem à frente de seu tempo, um cara que incomodava as elites, tanto que foi morto. Pra quem é cristão e, assim, comemora o natal, essa não deveria também ser uma atitude alienada. Agora me dêem licença; preciso voltar a A Origem da Desigualdade e da Propriedade Privada; pois pretendo terminá-lo antes do meio-dia de amanhã, já que à tarde, penso em começar Nada Podra Detener la Marcha da la Historia, que comprei com Lígia, minha amiga, semana passada… Que o ano de 2012 seja tão bom quanto cada um de nós, e nós em comum, fizermos ou não por merecer. O mundo NÃO acabará em 2012!

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Para Deter a Marcha da História

(Este artigo foi originalmente postado por mim em satorilivraria.com)

Para Deter a Marcha da História

Foi perguntado ao então presidente de Cuba, Fidel Castro, pelo congressista norte-americano Mervin Dymally, sobre as qualidades que um homem deveria ter para ser um grande líder, e o presidente respondeu que isso depende de cada época e circunstância específicas. Segundo ele, em algumas circunstâncias, “A habilidade para a guerra é o que mais importa; em outras circunstâncias, a habilidade de pensamento e raciocínio. Em outras, a capacidade de expressão, para pronunciar discursos, persuadindo os demais; em outras, a ação, a capacidade de ação; em outras, a capacidade de organização”. Ora, podemos considerar que em seu conjunto, todas essas habilidades listadas por Fidel como necessárias a um grande líder são, provavelmente, necessárias a qualquer líder, seja ele “grande” ou não, seja feita ou não ressalva à polissemia inerente ao termo “guerra”. Quando nos referimos à liderança política, na alvorada desse século XXI, o apela à retórica, a arte da persuasão, ela é cada vez mais sofisticada pelos grandes retóricos de nosso tempo, os políticos, os donos de agências de publicidade, a indústria da propaganda e do marketing em geral, à mídia em promíscuas negociatas com o Estado. Um problema a respeito do emprego da persuasão como método de ação política é o fato de que os objetivos da retórica são o suporte político para a manutenção do poder estatal nas mãos de governos que tratam os cidadãos, muitas das vezes, como meios, e não como fins. A retórica visa à aprovação de pontos de vistas vários e a dar suporte às afirmações do sujeito que discursa sem recurso ao critério da ética. A retórica se contenta com o engodo como sustentáculo do que se diz, da ideologia a ser disseminada, com a verossimilhança, não com a veracidade. Muitos governantes que se valem do povo que o elege como escada para uma nova eleição, inclusive – se não a maioria deles –, custe o que custar; tratam-se de elementos investidos do poder político e governam em detrimento de suas reais atribuições de servidores temporários do povo. Quando um governo age desse modo, pode fazer reviver as metáforas hobbesianas a respeito do Estado e do soberano, com um atraso histórico de quatro séculos. Pode ainda, mesmo que sem verbalizá-lo, ter internalizado o sentimento prepotente de um Luís XIV, acreditando que seja ele mesmo o Estado; e isso pode ocorrer nas atitudes de um governo nacional, ou de um governo regional ou local. Restam aos bombeiros, professores, policiais militares, profissionais da saúde do Estado, a solidariedade da população e o despertar da compreensão crítica das manipulações que o governador promove nos meios de comunicação de massa, que visam a desmoralizar os servidores em geral diante da opinião pública. Esse despertar já ocorreu, e pode ser percebido no modo como os motoristas reagem, ao passar em frente ao acampamento dos bombeiros, na escadaria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Os taxistas, os motoristas de coletivos, os particulares, todos param para receber a fita vermelha que representa a resistência dos bombeiros militares e a solidariedade da população, sensibilizada e reconhecendo os justos motivos das reivindicações, das quais a principal passa a ser a liberdade dos 439 presos. Essa é também uma das principais exigências dos professores do Estado, em greve desde a terça-feira, dia sete de Junho. À população, resta se unir aos servidores, em marcha histórica, no dia 12, na orla marítima da Zona Sul, para demonstrar seu auto-reconhecimento como parte dos que lutam contra o processo de privatização sistemática dos serviços básicos aos quais tem direito. Se isso parece exagero, basta observar, por exemplo, a infestação das parcerias público-privadas no setor da educação, em que bancos privados recebem poder parcial de gerentes de escolas públicas no estado do Rio de Janeiro; além do já referido Prouni. As sucessões de governadores têm tratado serviços essenciais ao cidadão do Estado do Rio como produtos, e o acesso a eles como consumo, de modo que o ofício público aparece transformado em braço de uma cadeia produtiva de recursos, tratados como capital; não é à toa que nos apropriamos de forma incoerente do discurso oficial de “investimentos” na área tal ou qual. A aplicação de recursos públicos na educação – e esses recursos são chamados “públicos” porque são os cidadãos que o fornecem – não deveriam ser chamados “investimentos”, haja vista as implicações ideológicas do termo em seu uso no mundo do capital. Quando os Estados brasileiro e fluminense gradualmente se enredam em negociatas que camuflam as reais e imediatas necessidades dos cidadãos, em benefício de empresas e instituições financeiras, é preciso estar atentos e agirmos contra a expropriação dos recursos que nos pertencem, e não ao governo. É importante considerarmos se desejamos a polarização da sociedade em campos opostos, como teorizou Marx; não que tal não ocorra já, mas é preciso saber o quanto essa inimizade evolui e é alimentada por interesses externos aos da sociedade civil, contra a qual tal oposição necessariamente se volta. É necessário pensarmos a contradição de pagarem os pobres por uma universidade particular, que como instituição privada almeja, antes de tudo, lucros e dividendos, enquanto outros têm acesso privilegiado aos melhores cursos superiores de graduação e pós-graduação. Cabe analisarmos quem realmente se beneficia do Prouni, uma vez que o papel do Estado seria criar vagas nas universidades públicas e disponibilizar os recursos que impediriam sua atual e patente ruína, diante de nossos olhos, com a redução progressiva dos recursos a elas destinados. Lamentavelmente temos diante de nossos olhos a figura de um homem que, digno de Cervantes, visa a deter a marcha da História. Parece-nos que o capitalismo tem vencido a guerra secular pela expropriação dos já expropriados trabalhadores do mundo, sejam servidores públicos ou não. Contraditório é, porém, um suposto servidor do povo que, eleito por ele para tal função, visando a potencializar as diferenças de classe, os antagonismos pré-existentes, ignorar que o peso da opressão que esmaga o trabalhador é o possível motor do escape pelas bordas da pirâmide social, custe o que custar. Custe o que custar, é o grito que se torna cada vez mais potente e prestes a ecoar pelas ruas. Isso não é idealismo ingênuo, mas retrato de análise da História humana. Há um momento em que parece às massas que a vida não vale a pena ser vivida a penas tão duras, e esse sentimento, que atualmente espoca no norte africano e no oriente médio, é filosoficamente abalizado pelo exemplo de Sócrates. Acusado, preso, julgado, condenado e morto por alguns políticos atenienses, deixou o modelo imorredouro de luta e fidelidade ao ideal de uma sociedade melhor, de uma humanidade melhor. Na Apologia, Sócrates diz que só valeria viver sob reflexão constante. E é à reflexão que podemos nos voltar para analisar as ações, os discursos, os modos como o governo do Estado, na figura controversa de seu executivo, tem se mostrado em público ou por trás das câmeras e palcos. É imprescindível desconfiar, se desejamos evitar os sofismas da linguagem a que recorrem todos os sofistas em seus palanques eleitorais, cujas colunas são feitas dos cifrões dos recursos públicos ou privados. Que excedente pensa o lobo que deva dar ainda o trabalho do servidor ao Estado do Rio de Janeiro? Talvez seja o seu sangue. Que paciência deve ainda ter o servidor, como pede a deputada da base do governo, Cidinha Campos? Possivelmente a apatia que os levaria à morte por inanição. Se a saúde pública estiver de muletas, como está, há muitos grupos privados que com isso passam muito bem: as numerosas empresas privadas de planos de saúde; se a educação pública de qualidade se tornar um ideal falido, pelo esvaziamento dos quadros, devido, sobretudo, aos baixos valores dos vencimentos, há um amplo mercado do saber, as prolíficas redes privadas de ensino – do nível básico aos cursos de pós-graduação – lucrando com “Prounis” e matrículas regulares em geral, em cursos em que os níveis de exigência e formação dos alunos são menores e evasão é muito maior que no sistema público de ensino superior. É como produto que o modelo econômico vigente e o governador do Estado deprecia a educação, e não como direito subjetivo do cidadão. Se a segurança pública estiver no alvo do governo, como sob mira de fuzis estiveram os bombeiros militares, as empresas de segurança, na mesma medida, aumentam sua clientela e multiplicam seus lucros pelo território. E enquanto tudo isso ocorre, os quadros do serviço público são evacuados, de modo gradual e crescente, em nome desses interesses econômicos, muitos deles com lobby internacional, de modo que o chamado “capital privado” (expressão que deveria ser considerada redundante, assim como “investimento” não é coerente ao caso da aplicação de recursos públicos) ocupa espaços que esperaríamos fossem de predomínio público; e isso pelo fato simples de que os objetivos da iniciativa privada são obviamente conflitantes com os interesses da população em geral, a qual somente lhe interessa do ponto de vista do consumo. A evacuação do quartel central, sob tiro, porrada e bomba, é um símbolo do desejo de um Estado mínimo em benefício de um capitalismo máximo: o anacrônico leviatã muda de lugar e se torna voraz, guarnecido de caninos. As necessidades de acesso a saúde, transporte, educação e segurança são tão prioritárias que são cuidados predominantemente estatais. Esvaziar os quadros com achatamento salarial (os bombeiros do Rio têm os mais baixos vencimentos do país) é um dos meios que se emprega para facilitar a ascendência da atuação privada nessas esferas. E isso certamente não contribui para a qualidade de vida da parcela da população que mais necessita deles, incluindo a distribuição dos recursos. A atuação privada é que possibilita a orientação dos estudantes na direção das hordas de trabalhadores com formação técnica para atender aos interesses momentâneos dos detentores dos meios de produção, formando trabalhadores como os braços alienados da acumulação de riqueza, desprovidos da formação humanista de que carecem para serem cidadãos mais conscientes, tendentes à completitude, e não apenas força produtiva. Pelo exposto, entende-se que as capacidades discursiva e ativa do governo do Estado têm sido multiplicadas, num esforço tirânico, para deter a marcha da História. Vando Juvenal _______________________________

Consultas

CASTRO, Fidel. Nada podra detener la marcha de la historia. Entrevista concedida a Jeffrey Elliot y Mervin Dymally sobre múltiples temas econômicos, políticos e históricos. p. 47. Editora Política: Habana, 1985.

FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. Tradução de Maria Stela Gonçalves, Adail U. Sobral, Marcos Bago e Nicolas Noemi Campanário. Edições Loyola: São Paulo, 2001.

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1990. MARX, Karl. O rendimento e suas fontes. In Karl Marx. Coleção Os Pensadores. p.249. Tradução de Edgar Malagodi. Nova Cultural: São Paulo, 2000.

Posted in Uncategorized | Leave a comment

>Tiririca, de Palhaço a Monstro, Isto é, a Deputado Estadual

>

Seu nome é Francisco Everardo Oliveira Silva, mas é conhecido como Tiririca, o humorista que ri das próprias piadas, no momento mesmo em que as conta, interrompendo o que conta para rir com gosto. Esse que é considerado um erro crasso de qualquer candidato a humorista, é justamente a marca desse nordestino que consegue que o público ria dele mesmo, do seu jeito de dizer, mais que do que diz. Antes das eleições de 3 de Outubro ele ganhou destaque na mídia nacional pelo fato de supostamente ser analfabeto e, mesmo assim, ter se candidatado a legislador pelo estado de São Paulo. Passado todo frisson a respeito, novela com direito a inquérito policial, risco de impugnação e de não-diplomação, apesar da vitória expressiva que obteve, Tiririca está no câmara dos deputados paulista, representando um dos estados brasileiros que mais maltrata os nordestinos que ali iam se refugiar, em busca de melhores condições de vida, através do trabalho, seja na construção civil, representando o garçom, o porteiro, ou o palhaço.

Palhaço. Foi assim que se passou a falar dele mais ostensivamente, mão para simplesmente destacar seu ofício, mas para desclassificá-lo de sua condição de cidadão elegível, segundo atestaram os tribunais eleitorais. O processo de propaganda eleitoral sempre incluiu um verdadeiro circo, em que os partidos políticos admitem e até incentivam figuras dignas de Cervantes à candidatura, especialmente em partidos políticos menores, pois um candidato “palhaço” – como provou o caso a que agora nos referimos – atrai os chamados votos de protesto, que contraditoriamente acabam levando votos a candidatos com potencial de vitória em seus partidos. Após as eleições as tevês do Brasil dão destaque a tais figuras, mais se omitem de fazê-lo durante o período de propaganda, evitando ações na justiça, e se esquecendo assim de que a crítica que mais importa fazer é antes das eleições, e não depois delas. Mas ninguém quer sujar as mãos, e parece mais fácil alardear o leite derramado que avisar da pedra no caminho, numa atitude de falsa assunção de responsabilidade, de hipocrisia, que camufla o desejo de conquista de melhores índices no Ibope.

Respeitável público! A que venho? Defender Tiririca, o artista, Tiririca, o deputado eleito pelo povo, ou o quê? Penso que o congressista não precisa ser defendido por mim, muito menos agora que ele já se encontra na casa legislativa, afinal nós demos a ele, inclusive, foro privilegiado. Pra mexer com Tiririca, agora mais do que antes, é preciso ter coragem e, se possível, embasamento jurídico com suportado por um advogado. Já não bastam, como antes, ter tomates nas mãos. A minha proposta é pensar porque esse senhor é tão criticado. Antes de tudo, deveríamos criticar, se é que tal atitude é cabível, as pessoas que nele votar: nós mesmos; a primeira crítica é, então, a autocrítica. “Mas eu não votei nele!”, você grita daí, cheio de autoridade e indignação. Eu digo que você falta com a verdade caso se enquadre em alguma das seguintes hipóteses:

1) você acredita que votar não serve de nada
2) você só vota porque é obrigatório
3) você vota acompanhando as pesquisas de intenção de voto
4) você deixou de votar nessas eleições
5) você alguma vez na vida votou em alguma personagem burlesca, e sem acreditar que ela pudesse ganhar
6) você já votou declaradamente em algum candidato por seu aspecto físico, ou deixou de votar em um, também declaradamente, pelo mesmo motivo
7) você, eleitor respeitável, já votou em alguém em troca de algum favor pessoal.

Obviamente a lista poderia ser maior, e se você se enquadra em algo parecido, como as pessoas que, tempos atrás, desperdiçaram seu voto depositando nas urnas o nome do animal mais famoso que o zôo do Rio já teve, o macaco Tião!

Senhoras e senhores, moças e rapazes, meninos e meninas! “O palhaço, o que é? Ladrão de mulher!” E o Maluf o que é? Será que o respeitabilíssimo senhor Paulo Maluf é procurado pela Interpol sem motivos? Perseguição política internacional? E o Maluf se reelege por que, depois de admitir que rouba mas faz? Pois algumas pessoas consideram exatamente que se um político ladrão ao menos fizer algo pelo povo, já está bom! (dessa vez não completarei a sentença com um xingamento, pois isso desmentiria o que tenho feito – chamá-los “respeitáveis”…). E tem mais, como sempre; já dizia um colega de trabalho, que representava o papel do “sargento mau”, nos meus tempos de exército: “para o mal não há limites”. Sua excelência, o deputado Sérgio Moraes, do PTB disse explicitamente ao Brasil que não dava a mínima pra opinião pública. Repito as palavras do nosso concidadão e congressista: “Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Nós nos reelegemos mesmo assim…”. Que prêmio demos a esse homem? Além da reeleição, ele tornou-se membro da comissão de ética da câmara paulista, após ter sido omisso no processo contra o deputado Edmar Moreira, que tinha um anacrônico “castelo medieval” em Minas Gerais, fruto de enriquecimento ilícito à custa de dinheiro público.

Estou terminando, mas ainda não, caras senhoras e digníssimos senhores, meninas, meninos e papagaios verde-amarelos. José Sarney. Nada direi a respeito desse ilustre senhor, ex-presidente da República Federativa do Brasil, coronel dos tempos modernos, presidente do senado, entre outros títulos honoríficos, a não ser seu nome, José Sarney. Não falarei sobre o ilustre senhor de Campos, Anthony Garotinho, que pôs Álvaro Lins pra chefiar a polícia civil exatamente por saber que o referido cometia crimes como capitão da polícia militar: nada mais adequado para um testa de ferro da quadrilha do nosso querido ex-governador; nada falarei a seu respeito, a não ser que somos nós, o povo, que o reelegemos.

Meus respeitáveis leitores, de nada adianta dizermos que não votamos nesse ou naquele, ou em nenhum dos referidos governantes. Repito, votamos neles mesmo que seja em nossa omissão, em nossa apatia, em nossas falas – uma das mais absurdas e inverossímeis possíveis – de que “política não se discute” (me controlo, novamente, e não xingo), mas me isento de comentar tal fala. Mas finalizo com a nossa última indignação contra o senhor Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como deputado Tiririca. Ele foi eleito, por seus pares, membro da comissão de educação e cultura da câmara dos deputados. Não vou refutar as críticas analisando o conceito de cultura, uma vez que muitos dirão, cheios de si, que o deputado “não tem cultura” – fala essa que é de uma ignorância crassa e, com todo respeito, não vou corrigir: tenho de terminar logo esse texto antes de o nó me tapar a garganta. Tiririca é legítimo merecedor de ser membro da comissão de cultura justamente porque pertence à classe artística, mesmo que você ignore sua atuação na tevê e insista em tentar desclassificá-lo chamando-o de “palhaço” – o que não desclassifica ninguém, pois o palhaço é um artista… Se um artista não pode ser membro da comissão, se não pelo pólo educacional, do que não discordo, certamente pelo pólo cultural. Muito menos eu o mereço, pois com a minha omissão permito que a propaganda política seja uma palhaçada, e não algo seriíssimo. E quanto ao fato de o referido senhor, em propaganda, dizer que não sabia o que faz um deputado, mas que quando aprendesse contaria ao povo, ele nada disse diferente do que muitos outros candidatos a congressistas poderiam também confessar, não o fazendo por não serem “palhaços”, no sentido estrito do termo. Além do mais, o que impede a esse homem, que representa muito bem a rica cultura nordestina – de onde provêm nomes como Luiz Gonzaga, Ariano Suassuna, Renato Aragão (a quem não chamam de palhaço), José Lins do Rego, Jorge Amado, Raquel de Queirós – mas também simboliza a falta de compromisso político de muitos cidadãos que agora gritamos contra ele, de realmente aprender o que se faz na câmara dos deputados de São Paulo? Ele ao menos, mesmo que em tom de escárnio, admitiu sua ignorância, o primeiro passo para o aprendizado. Mesmo para se aprender a ler é preciso se admitir que se não o saiba. E como membro da comissão de educação e cultura… Bem, quem sabe se seus pares não auxiliam o deputado a galgar alguns degraus no caminho da instrução formal, caso ele assim o deseje? Esse caso deveria ser também uma reflexão a respeito dos índices e analfabetismo no Brasil, incluído aí o analfabetismo funcional, incentivado por um sistema educacional que tem entre seus objetivos gerar números positivos através de altos contingentes de cidadãos “alfabetizados” de qualquer maneira, para impressionar as Nações Unidas. Nesse sentido, senhor deputado Francisco Everardo Oliveira Silva não é mais monstruoso que nós, assim como Mary Shelley é mais “monstruosa” que seu Frankenstein: ela o criou à sua imagem e semelhança. Aliás, o monstro é conhecido como “Frankenstein”, apesar de esse ser, na verdade, o nome de seu criador, o Dr. Henry Frankenstein, de Mary Shelley.

Posted in de Palhaço a Monstro, Tirirca | 2 Comments

>Ter Ideologia Não é Coisa Boba, Como Dizem

>Quando Cazuza escreveu, em Ideologia, sobre “aquele garoto que ia mudar o mundo”, sua frase trouxe uma ideia pouco notada por quem ouve ou lê: a de que o desejo de mudar o mundo é meramente uma crença juvenil e, como tal, indigna de atenção madura. Este argumento se sustenta se atentarmos para o termo “aquele” – referido a um garoto que, tão outro, ficou no passado, fato confirmado por suas atitudes, uma vez que “agora assiste a tudo de cima do muro”.

Cazuza escreveu seu lamento pela inexistência de ideologias em sua geração na década de 1980, saudoso dos idos de 60 (com destaque para 68) e 70, tempo de revoluções que varreram o planeta e cujos efeitos só agora, me parece, podem ser melhormente percebidos. Trinta anos depois, sinto como se estivéssemos num tempo posterior aos lamentos por tais “perdas”, por tal vazio ideológico; emito tal afirmação, porém, suspeitando de que ela se insira num ambiente intelectual em que tendemos a encontrar um “pós-alguma-coisa” em muito do que nos rodeia e se manifesta no pensamento, na arte, na política, enfim, na cultura ocidental. A própria ideia de “cultura ocidental” perdeu sua força, se considerarmos profundamente as experiências tecnológicas urbanas japonesas, as cirurgias plásticas e os Mc Donald’s da China – a despeito da censura à Google –, enquanto o mundo aguarda, em suspenso, o último suspiro de Fidel Castro (evento depois do qual um boom de Mc Donald’s pode varrer a ilha caribenha. É como se a cultura ocidental tivesse “ocidentalizado” o mundo inteiro, o que tornaria necessário rever o próprio conceito cultural de “ocidente”.

Penso que esse desfraldar de bandeiras infantilizando ou sepultando os sentimentos de missão, a elaboração de sentidos, o engajamento ideológico, pode estar a serviço de niilismo que serve a interesses comerciais, industriais ou, enfim, capitalistas. Um povo e uma juventude apáticos com que se importam? “Já que nada adianta, vivamos nossas vidas do melhor modo possível”, pensarão. O problema é que esse “melhor modo possível” é suspeito, posto que carente de motivações e raízes refletidas, profundas. O modo de viver sem idéias maiores aparece como financiador de uma facilitação diante dos desafios que o mundo nos oferece; assim, “sem opções”, a juventude pode, à vontade, se manter drogada, ignorar os estudos, a leitura, cometer crimes sem sentido algum, como pichar ilegível os muros de uma igreja, ou de um cemitério. Ora, o ilegível nem sequer é uma zombaria de Deus ou um desafio à morte…! É idiota, porque vazio, ilegível, um protesto hermético, esotérico, quase mudo.
Mudar o mundo é possível, desde que a ideia não seja tomada superficialmente. Dizem que grandes homens, em seu tempo, mudaram o mundo. Eu afirmo que eles não mudaram o mundo, jamais, sozinhos: eles surgiram num tempo propício e, portanto, de alguma maneira tiveram a colaboração de outras pessoas, de muitas pessoas de seu tempo, mesmo que muitas delas nem se dessem conta disso. Eu mudo o mundo apenas em conjunto com os outros homens, não posso fazê-lo sozinho. Se existisse a melhor aula do mundo e eu estivesse para apresentá-la, ela nada teria de transformadora se, de véspera, meus alunos combinassem um boicote, não comparecendo à escola, ou se todos fingissem ouvir, com fones de ouvidos minúsculos, que eu não pudesse perceber. Se eu for um pai excepcional, e minha mulher uma péssima mãe, a minha chance de mudar o mundo, por pouco que fosse, pela educação de meu filho, também se iria com os ventos. Se um potencial excelente presidente for assassinado ao assumir seu cargo, ou se tiver minoria insignificante no Congresso, sendo vetado em todo o possível pela oposição, não pode ajudar a transformar um país.

Não se muda sozinho o mundo, mas o mudamos em conjunto, como conjuntamente podemos ser apáticos e deixar tudo como está. Quem quiser mudar o mundo, deve buscar unir forças com outros que têm desejo semelhante e, de mãos dadas, podem empreender algum esforço que resulte efetivo. Do mesmo modo, um mundo não pode ser mudado da noite para a manhã – boas idéias demandam muito tempo para amadurecer. Uma ideia à qual muitos aderem fácil e rapidamente é do tipo das que são vendidas em best sellers: são sofismas, fogos de artifício, e sua inutilidade se revela também em pouco tempo.

Posted in Ideologia Não é Coisa Boba | Leave a comment

>Artifícios do Racismo na "Guerra ao Tráfico"

>No dia 30 de novembro, mais um dos em que se encena o circo do “combate ao narcotráfico” nas favelas da cidade do Rio, me deparei com uma fala estarrecedora no jornal O Globo. Foi extremamente infeliz (leia-se “DESGRAÇADO”) o delegado Alexandre Neto, ao se referir aos traficantes cariocas como “quilombolas do tráfico”. Digamos que o delegado “se esqueceu” do sentido histórico do termo quilombola – grupos que inclusive têm sido alvo (!) de maior atenção por parte das políticas “compensatórias” governamentais em reconhecimento de seu direito territorial e a um passado de opressão que ainda é mantida através do discurso, para dizer o mínimo.


Quilombola é o nome que se dá aos fugi
tivos, predominantemente negros, que se abrigaram em fortificações à margem da sociedade estabelecida como meio de evira a escravidão e as opressões às quais estavam submetido oficial e legalmente pela sociedade brasileira. O termo se refere ainda aos remanescentes, aos descendentes dessa gente que tanto sofreu e, hoje, mantém sua vida e suas tradições no territórios dos antigos quilombos.

Em face disso, a que se presta a escrita do delegado Alexandre Neto, se não a deturpar a imagem do pobre e do negro, assim associado ao tráfico, de maneira indiscriminada, ou discriminadora? Este senhor sabe citar Gilberto Freire, tem instrução privilegiada, não se trata de um equívoco! É um ataque dissimulado e deliberado ao negro, ao pobre, ao favelado, ao quilombola.

Posted in Artifícios do Racismo na "Guerra ao Tráfico" | Leave a comment

>O Globo e seu Modo Suspeito de Formar Opinião: Alienando seus Leitores

>Para o que quero dizer, pelo tempo que tenho para escrever e ir correndo tentar dispor meios na escola afim de que as aulas de hoje não sejam quadro, cuspe e giz, e pelo fato de que o que quero dizer é muito sério, esse texto não vai primar pelo estilo, que eu suponho ter quando posso.

Venho dizer o que muitos já sabem, mas nem sempre atentam para sua seriedade, e que muitos nem sequer se dão conta de que ocorre: os jornais não trazem estampado, em primeira página e com letras garrafias, e nem mesmo na última página, “VOTEM EM FULANA!” ou “VOTEM EM CICRANO!”. Eles não “botam a cara!” O que as empresas midiáticas e seus jornalistas fazem é expressar seus respectivos alinhamentos políticos nas manchetes que escolhem e na diagramação de suas “notícias”, a começar pela capa – a parte mais lida, pois quem não tem dinheiro pra comprar fica rodeando a banca de jornal pra ler as capas dos periódicos.

Considerarei a capa do jornal O Globo do dia 03 de outubro, dia das eleições no primeiro turno, e a capa do mesmo no dia 25 de outubro, nessa semana que antecede a decisão para a presidência da república em segundo turno. Antes, porém, faço rápido eco à crítica a algo que é notório mas não é facilmente notado pela população: que a tão falada questão do aborto não deveria polarizar as opiniões das pessoas, uma vez que isso não é uma questão que a presidência da república resolva por si mesma – são os deputados e senadores que, com suporte do judiciário, vão legislar, como sempre fez o legislativo, e não o executivo, a respeito. O problema é que quando um candidato, em manobra política e se valendo da ignorância popular, mobiliza a opinião pública a respeito de um tema impróprio, o outro se sente obrigado a responder às acusações, sob o risco de o primeiro dizer, por ele, o que quiser. Aí começa uma palhaçada imensa numa corrida pra ver quem aparece na tv ao lado de celebridades do mundo evangélico ou católico, quem tem Marina Silva ou não, quem foi à igreja ou não, quem fez mais reverências (hipócritas) ao cardeal-arcebispo do Rio, D. Orani Tempesta, ou a Silas Malafaia, já que Crivella, eleito, não polarizou a questão. E não deveria mesmo fazê-lo, já que o aborto, antes de ser questão religiosa, é uma questão legal, filosófica, científica e política, e Crivella já está no bloco da esquerda. Eu digo “antes” de ser questão religiosa pelo fato de que o Estado brasileiro, em sua constituição, não admite interferência religiosa em questões legais, a não ser opinando, e não decidindo. E as pessoas precisam saber que

NÃO É A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA QUE RESOLVE ESTA QUESTÃO DO ABORTO!

A capa de O Globo em 3 de outubro trás primeiramente a expressão “Quem vai administrar o Brasil real?” – uma sentença que contém uma intencional mensagem subliminar em referência ao plano real, comumente associado a FHC e, por extensão, ao PSDB e a José Serra. Abaixo, imediato, uma crítrica ao governo Lula que, segundo o jornal, “não avançou em áreas prioritárias”. Segue a imagem feita sem uso de flash de uma família com cara de fome, seguida da afirmação de que não têm energia elétrica em casa nem água potável; diz-se que o eleitor, que posa, com seu título eleitoral, de chefe da família, é analfabeto, apesar de votar e receber o Bolsa família.
A capa trás também a manchete: “História política revela que no país criaturas quase sempre se afastam dos criadores”. Quiseram sugerir, em português claro, é que enquanto Serra não deve seguir a política das privatizações de FHC – isso torna Serra mais “atraente” ao eleitorado – Dilma poderia, por sua vez, não seguir os passos de seu “criador”, Lula, que mantém recordes de popularidade… Dizer isso é um modo de tentar “queimar o filme” da candidata petista e promover o tucano, e essas são as intenções do jornal O Globo. Há muitos outros elementos para dizer ou principalmante sugestionar a mente do leitor, mas o texto seria enorme.
Já a capa do referido jornal em 25 de outubro, começa com duas manchetes sobre esportes: “Flu empata mas volta à liderança”, e “Alonso vence e pode ser tri no Brasil”. A elas segue a manchete de cunho político, em letras garrafais: “Serra sobe o tom; Dilma e Lula adotam o silêncio”. Pode ser que não haja relação intencional entre as manchetes, mas eu, desconfiado que sou, entendi que as frases sobre esporte têm uma estrutura psicologicamente sugestiva que pode ser relacionada à outra… Vou reescrevê-las, as três, e deixar você pensar por si mesmo:

“Flu EMPATA mas volta à LIDERANÇA”. “Alonso VENCE e pode ser tri no BRASIL”. “SERRA SOBE o tom; DILMA e Lula adotam SILÊNCIO”. Agora reescrevo as palavras em destaque, apenas: “EMPATA, LIDERA[nça] VENCE, SERRA SOBE, DILMA SILÊNCIO”. Bem, tudo o que Serra quer, obviamente é empatar com Dilma nas intenções de voto, passar à frente e liderar, para poder vencer; precisa, portanto, “subir”, reduzindo Dilma ao silêncio. Além disso, está implícita na manchete, que na verdade não fala das pesquisas de intenção de voto, mas de um dia de campanha, a ideia de que “quem cala consente”, já que “Serra sobe o tom” e “Dilma e Lula adotam silêncio”, indicando que é como se eles não tivessem argumentos para debater! Mais ainda: quem passa pela banca de jornal e não pára corre o risco de ler apenas “Serra sobe”, entendendo que o tucano “subiu seus índices de intenção de votos”. E como muita gente tende a votar baseado em pesquisa, isso é tendencioso. Se você considera que estou viajando, pergunte a alguém formado em Psicologia e ele vai te dizer se eu viajei mesmo ou se pode ter sentido no que eu digo. Ora, os jornalistas de O Globo sabem escrever muito melhor que eu, em sua maioria, pois fazem isso todos os dias e tem que passar na mensagem com muita clareza as intenções dos redatores e editores, aliás, do “Sistema Globo de Jornalismo” sob o risco de demissão!

O jornal exibe uma fotografia de Dilma com políticos que a apóiam, e outra de Serra com os seus, mas com uma diferença – dos nomes dos políticos que apóiam a candidata de Lula são omitidos os dos dois senadores eleitos do Rio, Lindberg Farias e Marcelo Crivella; já no caso de Serra, sob a foto estão os nomes de todos os que aparecem na imagem. Se o número de pessoas identificáveis é o mesmo em cada imagem – seis pessoas – por que o jornal não citou Lindberg e Crivella? Não me parece valer a pena discutir a intencionalidade presente neste “fato jornalístico”!
Preciso ainda mostrar o que diz a charge do Chico no jornal – pois uma charge pode falar mais que muitas palavras, e esta, de fato fala, através de vários símbolos:

1) Dilma parece uma “dondoca”, e Serra aparece como “trabalhador”, pois:
2) Dilma se protege do sol (já não chove na figura da charge) mas com um guarda-chuva (objeto masculino, diferente de um sombrinha…); Serra usa um capacete, muito bem reconhecível como o de um operário (é, portanto, um “trabalhador em ação”);
3) O tucano parece apressado, enquanto a petista, nem tanto;
4) José Serra está com “as mangas arregaçadas”; Dilma Rousseff é retratada de salto alto e terninho.

Voltando a lembrar que a relação que fiz com as manchetes esportivas são apenas uma desconfiança, ainda que me pareça bem fundada, e não uma afirmação, penso ter provado algo que já sabemos mas a que “não temos tempo” (ao menos é com isso que “eles” contam) pra analisar: que a mídia manipula nossa opinião descaradamente E (sic) disfarçadamente e, disfaçadamente disfarçada, mente. O problema não é opinar; o grande problema é o modo como se faz isso. Por ora, nada mais tenho a dizer, além de que o que comento sobre a capa se confirma de maneira muito mais esmagadora no interior do jornal.

Vando Juvenal, muito desconfiado.

Posted in O Globo e seu Modo Suspeito de Formar Opinião: Alienando seus Leitores | Leave a comment