>As Relações de Poder e o Poder da Relação

>Faz pouco tempo que aprendi que há um adjetivo alternativo e oposto a “autoritário”: autoritativo, aquele exercício do poder que não se arroga importância maior que a legítima, que ao poder não se apega e, principalmente, que não visa à opressão daqueles que se puseram à sua sombra ou, o que é mais comum, foram postos. Lá fui eu, o teórico, pôr em prática o que aprendi, e em poucos meses aprendi ainda mais: que a passagem da sombra autoritária à sombra autoritativa não é fácil, pois as pessoas, acostumadas à força, estranham a tentativa da suavidade. Por isso quem maior força exerce, maior silêncio consegue.
Não estou criticando os “fortes” do sistema – eles são mais felizes, e felicidade é o que queremos! E eles fazem felizes aqueles que, à sua sombra, buscam por direito o silêncio para poderem ser ouvidos, e para ouvirem a voz de quem aprendeu um pouco mais. Talvez a autoridade autoritativa seja melhor empregada em grupos etários mais experientes…? Só o tempo me dirá, mas é o que já me parece, em oito meses ajudando mentes parturientes a dar à luz ideias através desse que é um modo, para mim, um tanto novo. Talvez por isso eu não saiba responder. “-O tempo deve ser maior”, diria um obstetra; um filósofo diria, talvez, que são necessários anos…
As relações de poder irritam quem foi posto à sombra, pois causa uma sensação de impotência e o poder põe cercas à liberdade das pessoas. Hobbes, contrariamente, afirmou que essa limitação que o poder trás é que possibilita até mesmo a sobrevivência e a tolerância, enfim, a vida social; o que dificulta compreender tal coisa é a nossa ilusão a respeito da liberdade humana – nós fazemos dela uma ideia profundamente romântica, como a que foi expressa na música Born to be Wild. A liberdade, porém, se move entre os limites do determinismo e da possibilidade absoluta de escolhas; nem uma nem outro são fatos, a liberdade está no meio. “O que importa não é o que fiziram de nós, mas o que fazemos do que fizeram de nós”, disse Jean-Paul Sartre. Em concordância com a fala do grande Sartre, apresento alguns argumentos a respeito.
Podemos muitas coisas fáceis e rápidas. É tudo o que a maioria das pessoas quer, facilidade e rapidez, e por isso o gerente do Mer Dona disse ontem à noite ao Geraldo, quando este representava o seu papel de garçon: “-Sirva rápido àquela mesa o mais fast dos fast foods!” Mas se transliterarmos o som de food para a língua portuguesa, chegaremos bem perto da ideia do que acontece com o estômago do cliente a cada vez que vai ali comer. Entretanto, cada um escolhe o que comer, e eu também pago o preço de tal opção, mesmo que raramente.
Muita gente compra o diploma do Ensino Médio para tentar ingressar numa faculdade, e às vezes consegue ludibriar quem faz sua inscrição na instituição. Depois percebe, porém, que o conhecimento prévio era necessário ao curso, e desiste do projeto, como tantos outros que de fato fizeram o Ensino Médio!
Alguns homens não acreditaram que a expressão “dinheiro fácil” incorre em erro quanto a seu significado, formaram uma quadrilha, gastaram meio milhão de reais em “investimento”, trabalharam duro por meses e, enfim, conseguiram realizar o maior assalto a banco da história no Brasil; a coisa foi tão bem feita que o dinheiro, por se tratar de cédulas não-seriadas e já com certo uso, não poderia ser rastreado. Onde estão essas pessoas hoje? Alguns mortos, outros presos, quase todos extorquidos por policiais corruptos e, enfim, por isso mesmo, quase todos sem dinheiro algum, além de as famílias de alguns terem sido ameaçadas; pra não falar, inclusive, que algumas dessas famílias enterraram mortos ou visitam presidiários…
É fácil colar numa prova? Não é tão difícil. O problema, porém, surge similar ao dos que compram diplomas. Difícil é poder colar e optar por não fazê-lo, mesmo sem que se esteja confiante no resultado de suas próprias respostas; mais difícil ainda é entender que o objetivo deve ser o conhecimento, o saber, e não obter uma nota X ou Y. É difícil é comunicar ao professor que ele somou erradamente sua nota e te deu um ponto a mais (tenho tido o prazer de conhecer pessoas que são assim, e que certamente devolverão o troco que vier sobrando ao caixa do mercado ou ao cobrador do ônibus). O fato de que para cada pessoa que mostra o ponto sobrando há mais de dez que percebem o ponto a menos e vêm reclamar me parece suspeito… Será que a lei do Gérson está tão em voga? Espero que não, e gostaria que não soasse piegas essa preocupação, e que fossem vistas as consequências da lei do Gérson em longo prazo, e nas esferas políticas, e no convívio familiar, e com os amigos…
É fácil virar as costas a alguém que discorda de você e discute com energia num diálogo, e qualquer um pode fazê-lo; difícil é tentar argumentar sem apelar, sem gritar, mesmo que o outro grite, e ficar para resolver o problema. Não é difícil insistir nas próprias ilusões e “razões”, e se apegar ao que se quer; difícil é ceder, dar um passo atrás, dar o braço a torcer (não é sem razão que essa expressão implica a ideia de dor!), dizer que errou ou que não sabe.

As relações de poder têm me trazido uma experiência interessante: o poder da relação. Algumas pessoas, quando não gostam de você, passar e viram a cara, e parte delas chega a não responder ao seu cumprimento individual. Isso é fácil de fazer, e as pessoas podem fazer isso, se quiserem, e eu o reconheço como uma atitude honesta e não fingida. Outras pessoas, porém, fazem o contrário: insistem em ir até você falar contigo, desnecessariamente, somente pela ironia do gesto. Às vezes elas pensam que você não irá deixar de cumprimentá-las porque você é a origem da sombra autoritativa, e não da sombra autoritária. Elas se esquecem de que você pode originar outro tipo de sombra, e você efetivamente pode fazê-lo, não é difícil; na verdade é mais fácil de fazer que o cumprimento. Mas você sabe que isso é o óbvio, é o simples, e tem outras opções mais difíceis, porém mais dignas: você pode afetuosamente cumprimentar as pessoas, inclusive porque pode estar enganado quanto às intenções de uma ou outra delas – você sabe que não é o dono da verdade (aliás, ninguém é: nem Lula, nem Berlusconi, nem Chávez, nem Chapolin, e nem você). O que você descobre é que tem o poder de se relacionar com as pessoas, mesmo que seja mais fácil e simples deixar de fazer isto em certas circunstâncias – do mesmo modo que elas, mesmo sob outra perspectiva, o descobriram também! Se você se recusa, está fazendo o que todo mundo faz, e nesse momento a sua existência não tem nada de especial ou nobre. Contudo, você pode ainda assim desejar ser ignóbil, por que não? É uma possibilidade.

Não sou a favor do retórico “dar a outra face” – jamais, pelo contrário; mas dar a (outra) mão é o contrário de dar a face: um cumprimento, mesmo não tão sicero, é ainda assim um gesto amistoso. E nós podemos pôr empenho para que as relações de poder, autoritárias ou autoritativas, não impeçam os serem humanos de se relacionarem. Mesmo a contragosto podemos, num gesto, enunciar a profecia de uma relação verdadeira e sinceramente amistosa. Isso sim, é o nosso PODER, isso sim, é a nossa LIBERDADE.

A todos os meus alunos.

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About desconfiosofia

Eu ando por aí, entre as coisas, entre as pessoas, desconfiando... Como sempre vêm primeiro a nós as aparências, é preciso apurar a vista pra distinguir o falso, o engodo, a sofisticação (sofismas, na verdade). Não é o caso que eu desconfie "das pessoas", mas do que elas, às vezes eu mesmo, e o mundo em geral, tendem a apresentar e creditar como sendo "a realidade"... É assim que eu ando por aí, entre as coisas, através de mim, e entre as pessoas...
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