>O Globo e seu Modo Suspeito de Formar Opinião: Alienando seus Leitores

>Para o que quero dizer, pelo tempo que tenho para escrever e ir correndo tentar dispor meios na escola afim de que as aulas de hoje não sejam quadro, cuspe e giz, e pelo fato de que o que quero dizer é muito sério, esse texto não vai primar pelo estilo, que eu suponho ter quando posso.

Venho dizer o que muitos já sabem, mas nem sempre atentam para sua seriedade, e que muitos nem sequer se dão conta de que ocorre: os jornais não trazem estampado, em primeira página e com letras garrafias, e nem mesmo na última página, “VOTEM EM FULANA!” ou “VOTEM EM CICRANO!”. Eles não “botam a cara!” O que as empresas midiáticas e seus jornalistas fazem é expressar seus respectivos alinhamentos políticos nas manchetes que escolhem e na diagramação de suas “notícias”, a começar pela capa – a parte mais lida, pois quem não tem dinheiro pra comprar fica rodeando a banca de jornal pra ler as capas dos periódicos.

Considerarei a capa do jornal O Globo do dia 03 de outubro, dia das eleições no primeiro turno, e a capa do mesmo no dia 25 de outubro, nessa semana que antecede a decisão para a presidência da república em segundo turno. Antes, porém, faço rápido eco à crítica a algo que é notório mas não é facilmente notado pela população: que a tão falada questão do aborto não deveria polarizar as opiniões das pessoas, uma vez que isso não é uma questão que a presidência da república resolva por si mesma – são os deputados e senadores que, com suporte do judiciário, vão legislar, como sempre fez o legislativo, e não o executivo, a respeito. O problema é que quando um candidato, em manobra política e se valendo da ignorância popular, mobiliza a opinião pública a respeito de um tema impróprio, o outro se sente obrigado a responder às acusações, sob o risco de o primeiro dizer, por ele, o que quiser. Aí começa uma palhaçada imensa numa corrida pra ver quem aparece na tv ao lado de celebridades do mundo evangélico ou católico, quem tem Marina Silva ou não, quem foi à igreja ou não, quem fez mais reverências (hipócritas) ao cardeal-arcebispo do Rio, D. Orani Tempesta, ou a Silas Malafaia, já que Crivella, eleito, não polarizou a questão. E não deveria mesmo fazê-lo, já que o aborto, antes de ser questão religiosa, é uma questão legal, filosófica, científica e política, e Crivella já está no bloco da esquerda. Eu digo “antes” de ser questão religiosa pelo fato de que o Estado brasileiro, em sua constituição, não admite interferência religiosa em questões legais, a não ser opinando, e não decidindo. E as pessoas precisam saber que

NÃO É A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA QUE RESOLVE ESTA QUESTÃO DO ABORTO!

A capa de O Globo em 3 de outubro trás primeiramente a expressão “Quem vai administrar o Brasil real?” – uma sentença que contém uma intencional mensagem subliminar em referência ao plano real, comumente associado a FHC e, por extensão, ao PSDB e a José Serra. Abaixo, imediato, uma crítrica ao governo Lula que, segundo o jornal, “não avançou em áreas prioritárias”. Segue a imagem feita sem uso de flash de uma família com cara de fome, seguida da afirmação de que não têm energia elétrica em casa nem água potável; diz-se que o eleitor, que posa, com seu título eleitoral, de chefe da família, é analfabeto, apesar de votar e receber o Bolsa família.
A capa trás também a manchete: “História política revela que no país criaturas quase sempre se afastam dos criadores”. Quiseram sugerir, em português claro, é que enquanto Serra não deve seguir a política das privatizações de FHC – isso torna Serra mais “atraente” ao eleitorado – Dilma poderia, por sua vez, não seguir os passos de seu “criador”, Lula, que mantém recordes de popularidade… Dizer isso é um modo de tentar “queimar o filme” da candidata petista e promover o tucano, e essas são as intenções do jornal O Globo. Há muitos outros elementos para dizer ou principalmante sugestionar a mente do leitor, mas o texto seria enorme.
Já a capa do referido jornal em 25 de outubro, começa com duas manchetes sobre esportes: “Flu empata mas volta à liderança”, e “Alonso vence e pode ser tri no Brasil”. A elas segue a manchete de cunho político, em letras garrafais: “Serra sobe o tom; Dilma e Lula adotam o silêncio”. Pode ser que não haja relação intencional entre as manchetes, mas eu, desconfiado que sou, entendi que as frases sobre esporte têm uma estrutura psicologicamente sugestiva que pode ser relacionada à outra… Vou reescrevê-las, as três, e deixar você pensar por si mesmo:

“Flu EMPATA mas volta à LIDERANÇA”. “Alonso VENCE e pode ser tri no BRASIL”. “SERRA SOBE o tom; DILMA e Lula adotam SILÊNCIO”. Agora reescrevo as palavras em destaque, apenas: “EMPATA, LIDERA[nça] VENCE, SERRA SOBE, DILMA SILÊNCIO”. Bem, tudo o que Serra quer, obviamente é empatar com Dilma nas intenções de voto, passar à frente e liderar, para poder vencer; precisa, portanto, “subir”, reduzindo Dilma ao silêncio. Além disso, está implícita na manchete, que na verdade não fala das pesquisas de intenção de voto, mas de um dia de campanha, a ideia de que “quem cala consente”, já que “Serra sobe o tom” e “Dilma e Lula adotam silêncio”, indicando que é como se eles não tivessem argumentos para debater! Mais ainda: quem passa pela banca de jornal e não pára corre o risco de ler apenas “Serra sobe”, entendendo que o tucano “subiu seus índices de intenção de votos”. E como muita gente tende a votar baseado em pesquisa, isso é tendencioso. Se você considera que estou viajando, pergunte a alguém formado em Psicologia e ele vai te dizer se eu viajei mesmo ou se pode ter sentido no que eu digo. Ora, os jornalistas de O Globo sabem escrever muito melhor que eu, em sua maioria, pois fazem isso todos os dias e tem que passar na mensagem com muita clareza as intenções dos redatores e editores, aliás, do “Sistema Globo de Jornalismo” sob o risco de demissão!

O jornal exibe uma fotografia de Dilma com políticos que a apóiam, e outra de Serra com os seus, mas com uma diferença – dos nomes dos políticos que apóiam a candidata de Lula são omitidos os dos dois senadores eleitos do Rio, Lindberg Farias e Marcelo Crivella; já no caso de Serra, sob a foto estão os nomes de todos os que aparecem na imagem. Se o número de pessoas identificáveis é o mesmo em cada imagem – seis pessoas – por que o jornal não citou Lindberg e Crivella? Não me parece valer a pena discutir a intencionalidade presente neste “fato jornalístico”!
Preciso ainda mostrar o que diz a charge do Chico no jornal – pois uma charge pode falar mais que muitas palavras, e esta, de fato fala, através de vários símbolos:

1) Dilma parece uma “dondoca”, e Serra aparece como “trabalhador”, pois:
2) Dilma se protege do sol (já não chove na figura da charge) mas com um guarda-chuva (objeto masculino, diferente de um sombrinha…); Serra usa um capacete, muito bem reconhecível como o de um operário (é, portanto, um “trabalhador em ação”);
3) O tucano parece apressado, enquanto a petista, nem tanto;
4) José Serra está com “as mangas arregaçadas”; Dilma Rousseff é retratada de salto alto e terninho.

Voltando a lembrar que a relação que fiz com as manchetes esportivas são apenas uma desconfiança, ainda que me pareça bem fundada, e não uma afirmação, penso ter provado algo que já sabemos mas a que “não temos tempo” (ao menos é com isso que “eles” contam) pra analisar: que a mídia manipula nossa opinião descaradamente E (sic) disfarçadamente e, disfaçadamente disfarçada, mente. O problema não é opinar; o grande problema é o modo como se faz isso. Por ora, nada mais tenho a dizer, além de que o que comento sobre a capa se confirma de maneira muito mais esmagadora no interior do jornal.

Vando Juvenal, muito desconfiado.

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About desconfiosofia

Eu ando por aí, entre as coisas, entre as pessoas, desconfiando... Como sempre vêm primeiro a nós as aparências, é preciso apurar a vista pra distinguir o falso, o engodo, a sofisticação (sofismas, na verdade). Não é o caso que eu desconfie "das pessoas", mas do que elas, às vezes eu mesmo, e o mundo em geral, tendem a apresentar e creditar como sendo "a realidade"... É assim que eu ando por aí, entre as coisas, através de mim, e entre as pessoas...
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