>Ter Ideologia Não é Coisa Boba, Como Dizem

>Quando Cazuza escreveu, em Ideologia, sobre “aquele garoto que ia mudar o mundo”, sua frase trouxe uma ideia pouco notada por quem ouve ou lê: a de que o desejo de mudar o mundo é meramente uma crença juvenil e, como tal, indigna de atenção madura. Este argumento se sustenta se atentarmos para o termo “aquele” – referido a um garoto que, tão outro, ficou no passado, fato confirmado por suas atitudes, uma vez que “agora assiste a tudo de cima do muro”.

Cazuza escreveu seu lamento pela inexistência de ideologias em sua geração na década de 1980, saudoso dos idos de 60 (com destaque para 68) e 70, tempo de revoluções que varreram o planeta e cujos efeitos só agora, me parece, podem ser melhormente percebidos. Trinta anos depois, sinto como se estivéssemos num tempo posterior aos lamentos por tais “perdas”, por tal vazio ideológico; emito tal afirmação, porém, suspeitando de que ela se insira num ambiente intelectual em que tendemos a encontrar um “pós-alguma-coisa” em muito do que nos rodeia e se manifesta no pensamento, na arte, na política, enfim, na cultura ocidental. A própria ideia de “cultura ocidental” perdeu sua força, se considerarmos profundamente as experiências tecnológicas urbanas japonesas, as cirurgias plásticas e os Mc Donald’s da China – a despeito da censura à Google –, enquanto o mundo aguarda, em suspenso, o último suspiro de Fidel Castro (evento depois do qual um boom de Mc Donald’s pode varrer a ilha caribenha. É como se a cultura ocidental tivesse “ocidentalizado” o mundo inteiro, o que tornaria necessário rever o próprio conceito cultural de “ocidente”.

Penso que esse desfraldar de bandeiras infantilizando ou sepultando os sentimentos de missão, a elaboração de sentidos, o engajamento ideológico, pode estar a serviço de niilismo que serve a interesses comerciais, industriais ou, enfim, capitalistas. Um povo e uma juventude apáticos com que se importam? “Já que nada adianta, vivamos nossas vidas do melhor modo possível”, pensarão. O problema é que esse “melhor modo possível” é suspeito, posto que carente de motivações e raízes refletidas, profundas. O modo de viver sem idéias maiores aparece como financiador de uma facilitação diante dos desafios que o mundo nos oferece; assim, “sem opções”, a juventude pode, à vontade, se manter drogada, ignorar os estudos, a leitura, cometer crimes sem sentido algum, como pichar ilegível os muros de uma igreja, ou de um cemitério. Ora, o ilegível nem sequer é uma zombaria de Deus ou um desafio à morte…! É idiota, porque vazio, ilegível, um protesto hermético, esotérico, quase mudo.
Mudar o mundo é possível, desde que a ideia não seja tomada superficialmente. Dizem que grandes homens, em seu tempo, mudaram o mundo. Eu afirmo que eles não mudaram o mundo, jamais, sozinhos: eles surgiram num tempo propício e, portanto, de alguma maneira tiveram a colaboração de outras pessoas, de muitas pessoas de seu tempo, mesmo que muitas delas nem se dessem conta disso. Eu mudo o mundo apenas em conjunto com os outros homens, não posso fazê-lo sozinho. Se existisse a melhor aula do mundo e eu estivesse para apresentá-la, ela nada teria de transformadora se, de véspera, meus alunos combinassem um boicote, não comparecendo à escola, ou se todos fingissem ouvir, com fones de ouvidos minúsculos, que eu não pudesse perceber. Se eu for um pai excepcional, e minha mulher uma péssima mãe, a minha chance de mudar o mundo, por pouco que fosse, pela educação de meu filho, também se iria com os ventos. Se um potencial excelente presidente for assassinado ao assumir seu cargo, ou se tiver minoria insignificante no Congresso, sendo vetado em todo o possível pela oposição, não pode ajudar a transformar um país.

Não se muda sozinho o mundo, mas o mudamos em conjunto, como conjuntamente podemos ser apáticos e deixar tudo como está. Quem quiser mudar o mundo, deve buscar unir forças com outros que têm desejo semelhante e, de mãos dadas, podem empreender algum esforço que resulte efetivo. Do mesmo modo, um mundo não pode ser mudado da noite para a manhã – boas idéias demandam muito tempo para amadurecer. Uma ideia à qual muitos aderem fácil e rapidamente é do tipo das que são vendidas em best sellers: são sofismas, fogos de artifício, e sua inutilidade se revela também em pouco tempo.

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Eu ando por aí, entre as coisas, entre as pessoas, desconfiando... Como sempre vêm primeiro a nós as aparências, é preciso apurar a vista pra distinguir o falso, o engodo, a sofisticação (sofismas, na verdade). Não é o caso que eu desconfie "das pessoas", mas do que elas, às vezes eu mesmo, e o mundo em geral, tendem a apresentar e creditar como sendo "a realidade"... É assim que eu ando por aí, entre as coisas, através de mim, e entre as pessoas...
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