>Tiririca, de Palhaço a Monstro, Isto é, a Deputado Estadual

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Seu nome é Francisco Everardo Oliveira Silva, mas é conhecido como Tiririca, o humorista que ri das próprias piadas, no momento mesmo em que as conta, interrompendo o que conta para rir com gosto. Esse que é considerado um erro crasso de qualquer candidato a humorista, é justamente a marca desse nordestino que consegue que o público ria dele mesmo, do seu jeito de dizer, mais que do que diz. Antes das eleições de 3 de Outubro ele ganhou destaque na mídia nacional pelo fato de supostamente ser analfabeto e, mesmo assim, ter se candidatado a legislador pelo estado de São Paulo. Passado todo frisson a respeito, novela com direito a inquérito policial, risco de impugnação e de não-diplomação, apesar da vitória expressiva que obteve, Tiririca está no câmara dos deputados paulista, representando um dos estados brasileiros que mais maltrata os nordestinos que ali iam se refugiar, em busca de melhores condições de vida, através do trabalho, seja na construção civil, representando o garçom, o porteiro, ou o palhaço.

Palhaço. Foi assim que se passou a falar dele mais ostensivamente, mão para simplesmente destacar seu ofício, mas para desclassificá-lo de sua condição de cidadão elegível, segundo atestaram os tribunais eleitorais. O processo de propaganda eleitoral sempre incluiu um verdadeiro circo, em que os partidos políticos admitem e até incentivam figuras dignas de Cervantes à candidatura, especialmente em partidos políticos menores, pois um candidato “palhaço” – como provou o caso a que agora nos referimos – atrai os chamados votos de protesto, que contraditoriamente acabam levando votos a candidatos com potencial de vitória em seus partidos. Após as eleições as tevês do Brasil dão destaque a tais figuras, mais se omitem de fazê-lo durante o período de propaganda, evitando ações na justiça, e se esquecendo assim de que a crítica que mais importa fazer é antes das eleições, e não depois delas. Mas ninguém quer sujar as mãos, e parece mais fácil alardear o leite derramado que avisar da pedra no caminho, numa atitude de falsa assunção de responsabilidade, de hipocrisia, que camufla o desejo de conquista de melhores índices no Ibope.

Respeitável público! A que venho? Defender Tiririca, o artista, Tiririca, o deputado eleito pelo povo, ou o quê? Penso que o congressista não precisa ser defendido por mim, muito menos agora que ele já se encontra na casa legislativa, afinal nós demos a ele, inclusive, foro privilegiado. Pra mexer com Tiririca, agora mais do que antes, é preciso ter coragem e, se possível, embasamento jurídico com suportado por um advogado. Já não bastam, como antes, ter tomates nas mãos. A minha proposta é pensar porque esse senhor é tão criticado. Antes de tudo, deveríamos criticar, se é que tal atitude é cabível, as pessoas que nele votar: nós mesmos; a primeira crítica é, então, a autocrítica. “Mas eu não votei nele!”, você grita daí, cheio de autoridade e indignação. Eu digo que você falta com a verdade caso se enquadre em alguma das seguintes hipóteses:

1) você acredita que votar não serve de nada
2) você só vota porque é obrigatório
3) você vota acompanhando as pesquisas de intenção de voto
4) você deixou de votar nessas eleições
5) você alguma vez na vida votou em alguma personagem burlesca, e sem acreditar que ela pudesse ganhar
6) você já votou declaradamente em algum candidato por seu aspecto físico, ou deixou de votar em um, também declaradamente, pelo mesmo motivo
7) você, eleitor respeitável, já votou em alguém em troca de algum favor pessoal.

Obviamente a lista poderia ser maior, e se você se enquadra em algo parecido, como as pessoas que, tempos atrás, desperdiçaram seu voto depositando nas urnas o nome do animal mais famoso que o zôo do Rio já teve, o macaco Tião!

Senhoras e senhores, moças e rapazes, meninos e meninas! “O palhaço, o que é? Ladrão de mulher!” E o Maluf o que é? Será que o respeitabilíssimo senhor Paulo Maluf é procurado pela Interpol sem motivos? Perseguição política internacional? E o Maluf se reelege por que, depois de admitir que rouba mas faz? Pois algumas pessoas consideram exatamente que se um político ladrão ao menos fizer algo pelo povo, já está bom! (dessa vez não completarei a sentença com um xingamento, pois isso desmentiria o que tenho feito – chamá-los “respeitáveis”…). E tem mais, como sempre; já dizia um colega de trabalho, que representava o papel do “sargento mau”, nos meus tempos de exército: “para o mal não há limites”. Sua excelência, o deputado Sérgio Moraes, do PTB disse explicitamente ao Brasil que não dava a mínima pra opinião pública. Repito as palavras do nosso concidadão e congressista: “Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Nós nos reelegemos mesmo assim…”. Que prêmio demos a esse homem? Além da reeleição, ele tornou-se membro da comissão de ética da câmara paulista, após ter sido omisso no processo contra o deputado Edmar Moreira, que tinha um anacrônico “castelo medieval” em Minas Gerais, fruto de enriquecimento ilícito à custa de dinheiro público.

Estou terminando, mas ainda não, caras senhoras e digníssimos senhores, meninas, meninos e papagaios verde-amarelos. José Sarney. Nada direi a respeito desse ilustre senhor, ex-presidente da República Federativa do Brasil, coronel dos tempos modernos, presidente do senado, entre outros títulos honoríficos, a não ser seu nome, José Sarney. Não falarei sobre o ilustre senhor de Campos, Anthony Garotinho, que pôs Álvaro Lins pra chefiar a polícia civil exatamente por saber que o referido cometia crimes como capitão da polícia militar: nada mais adequado para um testa de ferro da quadrilha do nosso querido ex-governador; nada falarei a seu respeito, a não ser que somos nós, o povo, que o reelegemos.

Meus respeitáveis leitores, de nada adianta dizermos que não votamos nesse ou naquele, ou em nenhum dos referidos governantes. Repito, votamos neles mesmo que seja em nossa omissão, em nossa apatia, em nossas falas – uma das mais absurdas e inverossímeis possíveis – de que “política não se discute” (me controlo, novamente, e não xingo), mas me isento de comentar tal fala. Mas finalizo com a nossa última indignação contra o senhor Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como deputado Tiririca. Ele foi eleito, por seus pares, membro da comissão de educação e cultura da câmara dos deputados. Não vou refutar as críticas analisando o conceito de cultura, uma vez que muitos dirão, cheios de si, que o deputado “não tem cultura” – fala essa que é de uma ignorância crassa e, com todo respeito, não vou corrigir: tenho de terminar logo esse texto antes de o nó me tapar a garganta. Tiririca é legítimo merecedor de ser membro da comissão de cultura justamente porque pertence à classe artística, mesmo que você ignore sua atuação na tevê e insista em tentar desclassificá-lo chamando-o de “palhaço” – o que não desclassifica ninguém, pois o palhaço é um artista… Se um artista não pode ser membro da comissão, se não pelo pólo educacional, do que não discordo, certamente pelo pólo cultural. Muito menos eu o mereço, pois com a minha omissão permito que a propaganda política seja uma palhaçada, e não algo seriíssimo. E quanto ao fato de o referido senhor, em propaganda, dizer que não sabia o que faz um deputado, mas que quando aprendesse contaria ao povo, ele nada disse diferente do que muitos outros candidatos a congressistas poderiam também confessar, não o fazendo por não serem “palhaços”, no sentido estrito do termo. Além do mais, o que impede a esse homem, que representa muito bem a rica cultura nordestina – de onde provêm nomes como Luiz Gonzaga, Ariano Suassuna, Renato Aragão (a quem não chamam de palhaço), José Lins do Rego, Jorge Amado, Raquel de Queirós – mas também simboliza a falta de compromisso político de muitos cidadãos que agora gritamos contra ele, de realmente aprender o que se faz na câmara dos deputados de São Paulo? Ele ao menos, mesmo que em tom de escárnio, admitiu sua ignorância, o primeiro passo para o aprendizado. Mesmo para se aprender a ler é preciso se admitir que se não o saiba. E como membro da comissão de educação e cultura… Bem, quem sabe se seus pares não auxiliam o deputado a galgar alguns degraus no caminho da instrução formal, caso ele assim o deseje? Esse caso deveria ser também uma reflexão a respeito dos índices e analfabetismo no Brasil, incluído aí o analfabetismo funcional, incentivado por um sistema educacional que tem entre seus objetivos gerar números positivos através de altos contingentes de cidadãos “alfabetizados” de qualquer maneira, para impressionar as Nações Unidas. Nesse sentido, senhor deputado Francisco Everardo Oliveira Silva não é mais monstruoso que nós, assim como Mary Shelley é mais “monstruosa” que seu Frankenstein: ela o criou à sua imagem e semelhança. Aliás, o monstro é conhecido como “Frankenstein”, apesar de esse ser, na verdade, o nome de seu criador, o Dr. Henry Frankenstein, de Mary Shelley.

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Eu ando por aí, entre as coisas, entre as pessoas, desconfiando... Como sempre vêm primeiro a nós as aparências, é preciso apurar a vista pra distinguir o falso, o engodo, a sofisticação (sofismas, na verdade). Não é o caso que eu desconfie "das pessoas", mas do que elas, às vezes eu mesmo, e o mundo em geral, tendem a apresentar e creditar como sendo "a realidade"... É assim que eu ando por aí, entre as coisas, através de mim, e entre as pessoas...
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2 Responses to >Tiririca, de Palhaço a Monstro, Isto é, a Deputado Estadual

  1. Fredinho says:

    >Oi amigo, Sou o Lucas do Yahoo Respostas.Vou fazer 13 anos dia 6 de Junho e sou 7ºSérie, li o blog do guardião universal, o cara parece meio doido mas eu li no que ele acredita no começo tudo bem mas depois me pareceu meio arriscado, entendes?

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