Para Deter a Marcha da História

(Este artigo foi originalmente postado por mim em satorilivraria.com)

Para Deter a Marcha da História

Foi perguntado ao então presidente de Cuba, Fidel Castro, pelo congressista norte-americano Mervin Dymally, sobre as qualidades que um homem deveria ter para ser um grande líder, e o presidente respondeu que isso depende de cada época e circunstância específicas. Segundo ele, em algumas circunstâncias, “A habilidade para a guerra é o que mais importa; em outras circunstâncias, a habilidade de pensamento e raciocínio. Em outras, a capacidade de expressão, para pronunciar discursos, persuadindo os demais; em outras, a ação, a capacidade de ação; em outras, a capacidade de organização”. Ora, podemos considerar que em seu conjunto, todas essas habilidades listadas por Fidel como necessárias a um grande líder são, provavelmente, necessárias a qualquer líder, seja ele “grande” ou não, seja feita ou não ressalva à polissemia inerente ao termo “guerra”. Quando nos referimos à liderança política, na alvorada desse século XXI, o apela à retórica, a arte da persuasão, ela é cada vez mais sofisticada pelos grandes retóricos de nosso tempo, os políticos, os donos de agências de publicidade, a indústria da propaganda e do marketing em geral, à mídia em promíscuas negociatas com o Estado. Um problema a respeito do emprego da persuasão como método de ação política é o fato de que os objetivos da retórica são o suporte político para a manutenção do poder estatal nas mãos de governos que tratam os cidadãos, muitas das vezes, como meios, e não como fins. A retórica visa à aprovação de pontos de vistas vários e a dar suporte às afirmações do sujeito que discursa sem recurso ao critério da ética. A retórica se contenta com o engodo como sustentáculo do que se diz, da ideologia a ser disseminada, com a verossimilhança, não com a veracidade. Muitos governantes que se valem do povo que o elege como escada para uma nova eleição, inclusive – se não a maioria deles –, custe o que custar; tratam-se de elementos investidos do poder político e governam em detrimento de suas reais atribuições de servidores temporários do povo. Quando um governo age desse modo, pode fazer reviver as metáforas hobbesianas a respeito do Estado e do soberano, com um atraso histórico de quatro séculos. Pode ainda, mesmo que sem verbalizá-lo, ter internalizado o sentimento prepotente de um Luís XIV, acreditando que seja ele mesmo o Estado; e isso pode ocorrer nas atitudes de um governo nacional, ou de um governo regional ou local. Restam aos bombeiros, professores, policiais militares, profissionais da saúde do Estado, a solidariedade da população e o despertar da compreensão crítica das manipulações que o governador promove nos meios de comunicação de massa, que visam a desmoralizar os servidores em geral diante da opinião pública. Esse despertar já ocorreu, e pode ser percebido no modo como os motoristas reagem, ao passar em frente ao acampamento dos bombeiros, na escadaria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Os taxistas, os motoristas de coletivos, os particulares, todos param para receber a fita vermelha que representa a resistência dos bombeiros militares e a solidariedade da população, sensibilizada e reconhecendo os justos motivos das reivindicações, das quais a principal passa a ser a liberdade dos 439 presos. Essa é também uma das principais exigências dos professores do Estado, em greve desde a terça-feira, dia sete de Junho. À população, resta se unir aos servidores, em marcha histórica, no dia 12, na orla marítima da Zona Sul, para demonstrar seu auto-reconhecimento como parte dos que lutam contra o processo de privatização sistemática dos serviços básicos aos quais tem direito. Se isso parece exagero, basta observar, por exemplo, a infestação das parcerias público-privadas no setor da educação, em que bancos privados recebem poder parcial de gerentes de escolas públicas no estado do Rio de Janeiro; além do já referido Prouni. As sucessões de governadores têm tratado serviços essenciais ao cidadão do Estado do Rio como produtos, e o acesso a eles como consumo, de modo que o ofício público aparece transformado em braço de uma cadeia produtiva de recursos, tratados como capital; não é à toa que nos apropriamos de forma incoerente do discurso oficial de “investimentos” na área tal ou qual. A aplicação de recursos públicos na educação – e esses recursos são chamados “públicos” porque são os cidadãos que o fornecem – não deveriam ser chamados “investimentos”, haja vista as implicações ideológicas do termo em seu uso no mundo do capital. Quando os Estados brasileiro e fluminense gradualmente se enredam em negociatas que camuflam as reais e imediatas necessidades dos cidadãos, em benefício de empresas e instituições financeiras, é preciso estar atentos e agirmos contra a expropriação dos recursos que nos pertencem, e não ao governo. É importante considerarmos se desejamos a polarização da sociedade em campos opostos, como teorizou Marx; não que tal não ocorra já, mas é preciso saber o quanto essa inimizade evolui e é alimentada por interesses externos aos da sociedade civil, contra a qual tal oposição necessariamente se volta. É necessário pensarmos a contradição de pagarem os pobres por uma universidade particular, que como instituição privada almeja, antes de tudo, lucros e dividendos, enquanto outros têm acesso privilegiado aos melhores cursos superiores de graduação e pós-graduação. Cabe analisarmos quem realmente se beneficia do Prouni, uma vez que o papel do Estado seria criar vagas nas universidades públicas e disponibilizar os recursos que impediriam sua atual e patente ruína, diante de nossos olhos, com a redução progressiva dos recursos a elas destinados. Lamentavelmente temos diante de nossos olhos a figura de um homem que, digno de Cervantes, visa a deter a marcha da História. Parece-nos que o capitalismo tem vencido a guerra secular pela expropriação dos já expropriados trabalhadores do mundo, sejam servidores públicos ou não. Contraditório é, porém, um suposto servidor do povo que, eleito por ele para tal função, visando a potencializar as diferenças de classe, os antagonismos pré-existentes, ignorar que o peso da opressão que esmaga o trabalhador é o possível motor do escape pelas bordas da pirâmide social, custe o que custar. Custe o que custar, é o grito que se torna cada vez mais potente e prestes a ecoar pelas ruas. Isso não é idealismo ingênuo, mas retrato de análise da História humana. Há um momento em que parece às massas que a vida não vale a pena ser vivida a penas tão duras, e esse sentimento, que atualmente espoca no norte africano e no oriente médio, é filosoficamente abalizado pelo exemplo de Sócrates. Acusado, preso, julgado, condenado e morto por alguns políticos atenienses, deixou o modelo imorredouro de luta e fidelidade ao ideal de uma sociedade melhor, de uma humanidade melhor. Na Apologia, Sócrates diz que só valeria viver sob reflexão constante. E é à reflexão que podemos nos voltar para analisar as ações, os discursos, os modos como o governo do Estado, na figura controversa de seu executivo, tem se mostrado em público ou por trás das câmeras e palcos. É imprescindível desconfiar, se desejamos evitar os sofismas da linguagem a que recorrem todos os sofistas em seus palanques eleitorais, cujas colunas são feitas dos cifrões dos recursos públicos ou privados. Que excedente pensa o lobo que deva dar ainda o trabalho do servidor ao Estado do Rio de Janeiro? Talvez seja o seu sangue. Que paciência deve ainda ter o servidor, como pede a deputada da base do governo, Cidinha Campos? Possivelmente a apatia que os levaria à morte por inanição. Se a saúde pública estiver de muletas, como está, há muitos grupos privados que com isso passam muito bem: as numerosas empresas privadas de planos de saúde; se a educação pública de qualidade se tornar um ideal falido, pelo esvaziamento dos quadros, devido, sobretudo, aos baixos valores dos vencimentos, há um amplo mercado do saber, as prolíficas redes privadas de ensino – do nível básico aos cursos de pós-graduação – lucrando com “Prounis” e matrículas regulares em geral, em cursos em que os níveis de exigência e formação dos alunos são menores e evasão é muito maior que no sistema público de ensino superior. É como produto que o modelo econômico vigente e o governador do Estado deprecia a educação, e não como direito subjetivo do cidadão. Se a segurança pública estiver no alvo do governo, como sob mira de fuzis estiveram os bombeiros militares, as empresas de segurança, na mesma medida, aumentam sua clientela e multiplicam seus lucros pelo território. E enquanto tudo isso ocorre, os quadros do serviço público são evacuados, de modo gradual e crescente, em nome desses interesses econômicos, muitos deles com lobby internacional, de modo que o chamado “capital privado” (expressão que deveria ser considerada redundante, assim como “investimento” não é coerente ao caso da aplicação de recursos públicos) ocupa espaços que esperaríamos fossem de predomínio público; e isso pelo fato simples de que os objetivos da iniciativa privada são obviamente conflitantes com os interesses da população em geral, a qual somente lhe interessa do ponto de vista do consumo. A evacuação do quartel central, sob tiro, porrada e bomba, é um símbolo do desejo de um Estado mínimo em benefício de um capitalismo máximo: o anacrônico leviatã muda de lugar e se torna voraz, guarnecido de caninos. As necessidades de acesso a saúde, transporte, educação e segurança são tão prioritárias que são cuidados predominantemente estatais. Esvaziar os quadros com achatamento salarial (os bombeiros do Rio têm os mais baixos vencimentos do país) é um dos meios que se emprega para facilitar a ascendência da atuação privada nessas esferas. E isso certamente não contribui para a qualidade de vida da parcela da população que mais necessita deles, incluindo a distribuição dos recursos. A atuação privada é que possibilita a orientação dos estudantes na direção das hordas de trabalhadores com formação técnica para atender aos interesses momentâneos dos detentores dos meios de produção, formando trabalhadores como os braços alienados da acumulação de riqueza, desprovidos da formação humanista de que carecem para serem cidadãos mais conscientes, tendentes à completitude, e não apenas força produtiva. Pelo exposto, entende-se que as capacidades discursiva e ativa do governo do Estado têm sido multiplicadas, num esforço tirânico, para deter a marcha da História. Vando Juvenal _______________________________

Consultas

CASTRO, Fidel. Nada podra detener la marcha de la historia. Entrevista concedida a Jeffrey Elliot y Mervin Dymally sobre múltiples temas econômicos, políticos e históricos. p. 47. Editora Política: Habana, 1985.

FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. Tradução de Maria Stela Gonçalves, Adail U. Sobral, Marcos Bago e Nicolas Noemi Campanário. Edições Loyola: São Paulo, 2001.

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1990. MARX, Karl. O rendimento e suas fontes. In Karl Marx. Coleção Os Pensadores. p.249. Tradução de Edgar Malagodi. Nova Cultural: São Paulo, 2000.

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Eu ando por aí, entre as coisas, entre as pessoas, desconfiando... Como sempre vêm primeiro a nós as aparências, é preciso apurar a vista pra distinguir o falso, o engodo, a sofisticação (sofismas, na verdade). Não é o caso que eu desconfie "das pessoas", mas do que elas, às vezes eu mesmo, e o mundo em geral, tendem a apresentar e creditar como sendo "a realidade"... É assim que eu ando por aí, entre as coisas, através de mim, e entre as pessoas...
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