É Natal, vamos ao shopping, vamos comer e beber!

>Quando a banda punk Garotos Podres escreveu Papai Noel, Velho Batuta, eles entenderam que o coroa presenteava os ricos e cuspia nos pobres (ignorava-nos). Soa estranho isso hoje, ao menos no Brasil, e além disso saiu de moda chamar alguém de “porco capitalista”, ou do mal pronunciado e incompreendido “chauvinista”. Nos dias atuais, justamente por seus interesses financeiros é que Papai Noel sabe que deve ir a orfanatos, promover o Criança Esperança e subir as favelas para distribuir presentes, com as vantagens de aparecer gratuitamente nas colunas sociais e na tv, promover sua marca e suas empresas com o mesmo custo, deduzir de seu imposto de renda os gastos e, às vezes, até mais que o que gastar com os presentes. Papai Noel agora é mais malandro e, além disso, os pobres do Brasil já não são tão pobres, já têm acesso a automóveis novos, para desespero de alguns que, como o jornalista Luiz Carlos Prates, inqualificável, não querem com eles dividir as auto estradas. Não o chamarei de FDP justamente porque tal qualificação seria xingar as putas e não a ele; e as putas ficariam putas comigo! Os shopping centers estão de portas abertas esperando por nosso dinheiro, lindos em luzes, “velhos batutas” com aquele idiota “rôu! rôu! rôu!”, que eu não imagino de onde saiu, renas e guirlandas; há shoppings que até instalam aparelhos para fabricar “neve” – tudo para atrair clientes e vender mais. A “noite de natal” e a seguinte deve ser a noite em que se batem os recordes mundiais de desperdício de comida. Obviamente, é melhor você desperdiçar comida que não ter o que comer. O desperdício é um símbolo de fartura, ainda que muita gente gaste todo um salário do mês comprando presentes e com essa “fartura”… Aliás, ela precisa ser ostentada, especialmente nessa época, sob pena de vergonha social e comentários maledicentes. A propósito, é difícil pensar que o que eu desperdiço, comprado com o meu dinheiro e o suor do meu trabalho, tenha alguma relação com as necessidades que os outros passam “lá, bem longe”. Afinal, eu não sou obrigado a fazer doações de comida ou dinheiro ou o que quer que seja a quem quer que seja. Contudo, essa relação existe. Consideremos que 30% de toda comida produzida no mundo é desperdiçada, e a maior parte disso não ocorre porque os alimentos estragam antes de chegar à mesa, mas depois das refeições. Imaginemos então que, se em vez de desperdiçar 30% o fizéssemos com apenas 10%, ou 5%. O cálculo nem é tão complicado: se comprássemos 20 ou 25% a menos, será que os preços não seriam menores, de modo a atrair os que pouco compram, ou mal podem consumir, ao mercado? Essa é uma lógica similar à dos boicotes a produtos e marcas, por exemplo: o produtor precisa se adequar à demanda. Nessa época também consumimos um monte de porcarias hiperadoçadas, que trazem prejuízos à nossa saúde, desde os dentes até às taxas hormonais e de peso. Muitas dessas coisas são importadas, o que não interessa à balança comercial do país – com a qual não nos importamos quando compramos importados americanos, chineses ou japoneses. Aliás, quem sabe ou quer saber que raio é uma “balança comercial”? Não é a balança do feirante, ou a do supermercado? Bem, o que importa mesmo a muita gente é “fazer a dieta” depois do revéillon. Antes disso, esgotam a paciências de outros falando em dieta e IMC… enquanto comem panetone, chocotone, bolotone, e assim por diante. Fico imaginando como foram os tempos em que Dezembro era lembrado por seu sentido religioso e pela ideia de fraternidade, e não como o mês das compras, em que o comércio mais vende – tanto que temporariamente contrata funcionários extra -, o mês em que mais se come, e o mês em que mais se bebe. Dizem também ser um dos meses em que ocorrem mais assaltos, pois bandidos também precisam de dinheiro (como todos acreditam que precisam de) para comemorar o natal. É o cúmulo do absurdo: o F&%$*&##$ vai assaltar porque necessita de dinheiro para comemorar o nascimento do Cristo! Cada um com suas manias, mas com muito em comum; uns roubam, outros entram em coma etílico; outros vão ter enfartos um ou dois meses depois por conta do que fizeram com o corpo em Dezembro; alguns se endividam para celebrar o natalício de um homem pobre que, às vezes, catava frutas das bordas dos pomares alheios (equivalente ao atual catamento da sobra da feira). Curiosamente, seu povo tinha o hábito de deixar alguma coisa pendente nos pomares para os miseráveis recolherem… Eu nada tenho contra comida e bebida, até porque adoro comer e beber. Não sou contra presentear as pessoas, pois gosto de receber e dar presentes. Também acho que cada um pode fazer o que quiser com o próprio dinheiro, o próprio corpo, e eu também vou às compras sem pensar na balança comercial do país, ou no controverso superávit primário. Entretanto, tudo isso pode ser objeto de reflexão. Se o sentido do feriado é comemorar o nascimento de Jesus, eu penso que as pessoas, mesmo fazendo tudo isso a que me referi, em diferentes graus de ação e omissão, poderiam também graduar com justiça suas atitudes em relação a tais fatos. As crianças são doutrinadas nessa atitude cultural, e a cultura diz quem nós somos, quem eu próprio sou, ainda que eu mesmo não comemore o natal; mais que isso, ela determina, em parte, quem seremos, atráves dessas crianças a quem damos tantos hambúrgueres – sem nos interessarmos por seus processos da fabricação – e tantas Barbies – a despeito de nosso biotipo ou do delas. Outra coisa absurda é experienciar todo esse frisson natalino sem pensar no motivo da festa, por “menos cristão” que você seja. Obviamente quem não é, de modo algum, cristão, não tem porque comemorar essa data. Mas para quem é, o momento pode ser de refletir, e não de se alienar ou de alienar os outros, como as crianças. Jesus não era um alienado político ou religioso, era um homem à frente de seu tempo, um cara que incomodava as elites, tanto que foi morto. Pra quem é cristão e, assim, comemora o natal, essa não deveria também ser uma atitude alienada. Agora me dêem licença; preciso voltar a A Origem da Desigualdade e da Propriedade Privada; pois pretendo terminá-lo antes do meio-dia de amanhã, já que à tarde, penso em começar Nada Podra Detener la Marcha da la Historia, que comprei com Lígia, minha amiga, semana passada… Que o ano de 2012 seja tão bom quanto cada um de nós, e nós em comum, fizermos ou não por merecer. O mundo NÃO acabará em 2012!

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About desconfiosofia

Eu ando por aí, entre as coisas, entre as pessoas, desconfiando... Como sempre vêm primeiro a nós as aparências, é preciso apurar a vista pra distinguir o falso, o engodo, a sofisticação (sofismas, na verdade). Não é o caso que eu desconfie "das pessoas", mas do que elas, às vezes eu mesmo, e o mundo em geral, tendem a apresentar e creditar como sendo "a realidade"... É assim que eu ando por aí, entre as coisas, através de mim, e entre as pessoas...
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