>Precisamos Expulsar da Mente os Falsos Demônios Políticos Que Ainda Nos Assombram

>O que impressiona é que alguns candidatos ou seus correligionários ainda apelam e métodos sujos para enganar a ignorância do povo. Foi assim que opositores de Dilma inventaram histórias de anticristos e cerceamentos futuros à liberdade religiosa, para desesperar uma legião de evangélicos. Estes se esqueceram de que as mesmas histórias pseudoapocalípticas foram divulgadas desde a primeira candidatura de Lula. Só falta ressuscitarem o fantasma dos “comedores de criancinhas”.
Há exato um ano o Estadão online publicou notícia dos bons votos dos evangélicos – inclusive assembleianos, nicho protestante do qual Marina Silva é representante – que prometeram orar por Dilma Rousseff, em um culto numa Assembleia de Deus, em São Paulo, sob os auspícios do deputado federal Hidekazu Takayama, do PArtido Socialista Cristão.
A guerra suja da política, porém, ganha terreno, à medida mesmo da curta memória e descompromisso de todos nós. Nada contra Marina ou José Serra, mas que o jogo é sujo, isso é! E muito!

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>Tinha GENTE no bar…

>Saímos do parque e paramos num bar, queríamos comer, beber e karaokê. Beber mesmo só alguns; uma delas, por exemplo, ficava indignada: “- Como vocês conseguem beber cerveja?” Éramos sete, e fomos prontamente atendidos, a garçonete era solícita, como cabe. Dois minutos depois, a minha amiga diz:

– Olha lá aquilo, Vando!

Procurei na direção que ela olhava e não encontrei “aquilo” algum. Insistiu, insisti, nada.

– Por cima do muro, Vando!

Olhei, vi duas cabeças, mais nada; havia gente por toda parte, andando. Então ela fez uma descrição:

– Ai, que nojo! Elas estão se beijando!

Bem, eram duas pessoas se beijando, nada além disso, duas mulheres. Esse era o “problema” e o motivo da curiosidade para ela.

– E daí?, perguntei.
– E DAÍ??” Pô, que coisa estranha!
– Te deu tesão?, perguntei, estranha por quê?
– Pára, Vando!
– Ué… Se você está olhando é porque se interessou. Veja que só nós estamos fazendo isso, mais ninguém no bar.

Nisso ela tentou me dar um tapinha. E começamos um diálogo sobre a “coisa”. O fato é que a boite ao lado era GLS. E daí que as pessoas vinham utilizar o banheiro do bar, passavam casais de meninas, homens sozinhos, etc. Em nossa mesa, éramos todos presumidamente héteros. Um amigo, a certa altura, deu um troço e começou a discutir com a mãe por causa do lugar, e a minha amiga, que primeiro havia se manifestado, segundo ele, “deu-lhe um soco” (certamente um soco bobo, meio brincado, de namorada). O cara queria ir embora, o assunto rendeu, mesmo sem que nenhuma das pessoas nos abordasse ou olhasse na nossa direção. Penso até que olhavam menos que o normal; eu flertava com algumas meninas que passavam sozinhas, ou quando suas parceiras estavam de costas. Mostrei a elas alguns caras que pareciam ter ido ali achando que iam arrumar dinheiro; propus a um dos garotos, brincando, que ele tentasse arrumar algum também, já que estava duro.

Enfim, ficamos no bar o quanto quisemos, tudo numa boa. Só quase no final, a amiga-mãe me chamou num canto:

– Vando, vou mandar aquele velho à puta-que-pariu!
– O que houve?, perguntei.
– Ele está olhando a minha filha [21 anos], aquele nojento!
– E o que tem isso?
– O QUE TEM??? VOCÊ VAI VER O QUE TEM, SE ELE CONTINUAR!!!
– Deixa o cara olhar, pô! Você acha que se eu tivesse 50 anos, deixaria de olhar pra ela só porque ela novinha? Não vai tirar pedaço…
– Se ele continuar você vai ver só!

Pois bem, a única pessoa que, além de nós, aparentava ser hétero – leia-se “normal” (por favor, é uma ironia!) – foi justamente a que incomodou… porque não era tão “normal”: era “um velho”! Preciso dizer a moral da história? A gente quase indo ao ponto de discriminar alguém e de sermos presos, pra deixarmos de ser babacas. Ia ser lindo, a família toda indo pra DP, incluindo uma menininha linda que, naquela época, não tinha mais que 10 anos de idade e que nada dizia. Fico pensando o que ela pode “dizer”, no futuro, pelo que aprendeu naquela noite feia… E assim ficamos por ali, com os nossos preconceitos mal escondidos. Talvez alguém tenha mesmo se ressentido por não ser abordado quando foi ao banheiro ou ao karaokê sozinho.

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>Esperanças e Desesperanças – Entre a Democracia e a Hipocrisia

>A desesperança está instalada na população, no eleitorado brasileiro, há muito tempo, sendo portanto já lugar comum nomeá-la. Mais que isso, cabe então revê-la e repensá-la.
Saí da minha seção eleitoral com um jornal de grande circulação sob o braço, o qual não disfarçava bem sua rejeição a um dos candidatos à Presidência da República, e mostrando motivos inseguros – o que na verdade revela seu alinhamento político. A desesperança, contudo, tornou-se praticamente parte da cultura do eleitorado; o brasileiro já se acostumou com a ideia de não ter esperança, a generalizar, a dizer que “todo político” é isso ou aquilo ou que de nada adianta votar. Nessa desesperança exacerbada, entrevejo certo masoquismo e autocomizeração: tendemos a ter pena de nós mesmos, como se isso fosse resolver nossos problemas políticos e sociais, e nessa disposição, o exagero parece reforçar a ilusão promovida pela representação do papel de vítima; tendemos a fingir que não somos atores políticos, pois parece mais cômodo assistir a tv acreditando que “eles”, “os outros”, “os políticos” é que são os atores ou, no mínimo, os protagonistas dessa batalha por cidadania e melhorias, cabendo aos demais, que se crêem não ser eles, que também vivem na pólis, políticos. As massas tendem também a ver “os políticos’ como seus antagonistas, quase seus inimigos naturais…
Vivemos de fingimentos e hipocrisias. Em nome de uma afiliação ou simpatia política, fechamos os olhos para o que acontece aos nosso redor. Os professores e cedaeanos, em massa, pregam o voto anti-Cabral; muitos favoráveis à descriminalização do uso da maconha se alinham ao PV; grupos evangélicos tendem a fortalecer sua bancada, a despeito dos candidatos, às vezes, e espalham spams sobre “anticristos de esquerda” pelas redes sociais da Internet (e eu, bobo, pensava que o anticristo deveria ser de direita, pois a direita é, por força da definição “antiesquerda”). É necessário reconhecer que esse tipo de alinhamento político, reflexo do princípio da representatividade setorial, tem lá sua legitimidade. O problema é que os professores se limitem a votar como servidores e, portanto, “vítimas” do governador; que os adictos desconsiderem os fatos políticos em geral, se limitando a pensar na hora de dar um tapinha sem se importar com a polícia; que os cedaeanos apenas considerem as grosserias sofridas, da parte do executivo, nos processos de negociação salarial; que os evangélicos se pautem simplesmente pelo fator religioso para defender uma proposta político-governamental que é muito mais ampla. Não se costuma fazer esse tipo de associação, mas penso que tais atitudes reducionistas não diferem em muito do que tanto se alardeia a torto e a direito como analfabetismo político – quem não é bem o de que se suspeita que o candidato a deputado federal por São Paulo, Tiririca, é suspeito.
A hipocrisia reside nos fingimentos cotidianos nas acusações aos políticos disso e daquilo, quando eles são, de fato, nossos legítimos candidatos. Os políticos são corruptos porque nós (que também somos políticos, e ainda que não fôssemos) somos corruptos. Ninguém nasce político ou corrupto, mas se as pessoas se tornam tais, não o fazem em isolamento, mas em comunidade, em sociedade, e não no interiro de sua família: tornamo-nos corruptos ou o que for em casa, na escola, na igreja, na política profissional, na trabalho, nas ruas; nos corrompemos junto de nossos amigos, na nossa omissão, conivência ou participação ativa em golpes ou supostos “atos de esperteza” contra o patrimônio público ou privado. Somos corruptos quando, em vez de nos mobilizarmos contra a pesada carga tributária nacional, resolvemos localmente nossa dor pela mordida do leão dando golpes contra o imposto de renda.
Estive conversando com universitários sobre o processo eleitoral – essa gente cujos professores dizem que são a elite intelectual do país (do que não duvido). O nível de desinformação que grassa entre muitos deles é alarmente. Muitos fazem afirmações levianas sem qualquer respaldo fático, revelando apenas suas paixões políticas. Isso me exaspera! O mais triste, porém, é constatar algumas conversas que ouço entre professores, uma gente que pretende educar as crianças e jovens; falo do que dizem não apenas sobre políticas, mas principalmente sobre isso. Então me ponho a pensar: “se os universitários agem desse modo, e se professores, no mínimo graduados, se comportam de tal forma”, de que podemos nós reclamar? Talvez das nossas próprias incompetência e ignorância!
O Estado é conivente com a boca de urna, pois finge inibi-la pondo dois ou três policiais militares em cada zona eleitoral (na escola onde voto, vi dois deles de pé, escostados ao muro, cada um com um joelho flexionado de modo a apoiar a sola do coturno no muro da escola, recém pintado). As ruas estão imundas de panfletos distribuídos hoje, apesar da proibição legal. Seria apenas uma questão de desrespeito à lei o motivo da sujeira? Afirmo que não! As ruas estão sujas, especialmente hoje, 3 de Outubro, o dia da “festa da democracia”, principalmente porque nós, os que reclamamos dos políticos e de tudo o mais, jogamos o lixo no chão. Tive a infelicidade de ver um homem que, não satisfeito, picou em pedacinhos os panfletos que recebeu, antes de jogá-los pra cima.
Para quem não sabe associar isso à pratica da corrupção, eu lamento, mas não vou explicar. É que estou me tornando um tanto intransigente… não deveria, mas estou.

Vando Juvenal

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>XENOFILIA

>Sempre me exaspera a subserviência dos brasileiros aos modelos externos e à recepção estúpida da cultura americana e européia, em especial no que diz respeito aos entretenimentos de massa – o cinema, a tv, enfim, as mídias audiovisuais. Não estou criticando o que é inevitável e até proveitoso para a diversidade e para o sentimento humano de co-pertencimento, as assim chamadas trocas culturais. Mas não me parece haver “troca” quando um povo se vende tão barato ao domínio de outros, sem o mínimo de resistência, como o brasileiro faz. Não estou pedindo que as massas ajam com se não o fossem, não peço refinamento a quem seja, pois penso que o “verdadeiro humano”, se tal existisse, seria mesmo o popular; o popular, porém, o comportamento massivo, não precisa ser o mais elementar; as massas não precisam ser “burras”, como querem alguns (ou muitos?).
Conto sempre até dez quando me vêm dizer que o cinema nacional é pornográfico. Esse tipo de crítica até que tem deixado de chegar até mim, sinal de que, talvez, temos nos reconhecido um pouco mais no que produzimos, temos deixado de negar nossa sensualidade, nosso modo de ser (e que ninguém diga, por isso, que reduzo a brasilidade ao chavão eXXXplorador da “latinidade”, por favor). Entretanto, persiste a fala de que nossos filmes “têm muitos palavrões”.
Algumas pessoas diriam que me refiro às falas de quem não tem o acesso mínimo à língua anglo-americana, e também que não assiste a filmes espanhóis ou argentinos. É óbvio! Estou falando em “cultura de massa”, ππππππππππ! As salas brasileiras – que, não nego, refletem também o desejo do público – abrem os braços muito mais para “os enlatados de USA“, como disseram Renato Russo e Dado Vila-lobos. Sabemos (quem?) também que isso se dá, igualmente, pela força do capital: eles podem nos empurrar esses produtos goela a dentro. Mas nós, por nossa vez, facilitamos para que não precisem empurrar tão forte…
Sylvester Stallone disse hoje, na Comic Con 2010, uma feira de cultura pop, na Califórnia, que

Filmamos no Brasil porque lá você pode machucar as pessoas enquanto filma. Você pode explodir o país inteiro e eles ainda dizem para você, ‘obrigado e tome aqui um macaco para você levar para casa. (…) Os policiais de lá [do BOPE] usam camisetas com uma caveira, duas armas e uma adaga cravada no centro; já imaginou se os policiais de Los Angeles usassem isso? Já mostra o quão problemático é aquele lugar.

Se você acha que vou criticar Stallone, desista. Ele nos ridicularizou, mas não mentiu. Igualmente, não vou fazer críticas ao BOPE, pois as letras das canções de treinamento trazem bem claras parte da ideologia do grupo, e o referido símbolo também; não vou criticar o modo como cuidamos de nossa biodiversidade (é mais fácil para estrangeiros criticarem, pois seus governos, em geral, não têm que se preocupar com um tão grande contingente vivo, distribuído numa área tão extensa, além do fato de que muitos desses governos são omissos em relação ao recebimento e pirateamento de nosso patrimônio natural); quanto aos coadjuvantes que participaram das filmagens de Os Mercenários, no Brasil, destes mesmo é que nada direi – são profissionais, com isso eu não me meto.
O que pretendo citando Stallone é mostrar que nossa subserviência volta à nossa cara, pra deixarmos de ser babacas. Stallone não precisou de palavrões – que sobram nos filmes americanos, onde “fuck” antecede a muitos termos – e não estou reclamando disso, pra mim não há problema algum – pra nos achincalhar: bastou dizer de nossa recepção à cultura de massa made in USA, de braços abertos, como o Cristo. Para se referir a ele, nossos estudantes da língua inglesa devem estar aprendendo a dizer e escrever Christ Redeemer em qualquer contexto… É a isso que me refiro, você percebeu, ππππππππππ?
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Esse comportamento não é privilégio brasileiro, mas volto a lembrar que não podemos reduzi-lo ao fenômeno chamado “trocas culturais”, por Lévi-Strauss. Está bombando por aí um clip em que Snoop Dogg aparece, numa cena, enterrado na areia e cercado pro mulheres brancas. O que eu tenho contra mulheres brancas? Nada! Eu adoro mulheres brancas, mulheres pretas, mulheres amarelas e mulheres vermelhas – apesar de não ter visto de perto, ainda, as últimas. Eu também adoro mulheres azuis, e não me refiro à Smurfet: quero dizer que a cor da pele delas não me induz preferência alguma, ainda que pudesse tê-la. Se houver mulheres azuis ou verdes eu as amarei também. Mas por que um homem negro, mesmo depois de fazer tanto sucesso, se submete a isso? Será que não vê que tal coisa pode servir de emblema e símbolo de um passado que insiste em perdurar?

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http://www.sosaci.org/saci_imprensa3.htm Descobri essa página da web, que fala muito bem sobre as trocas culturais, mesmo com minha tendência a recusar trocas que não sejam bilaterais (parece que Strauss se refere a trocas múltiplas, de modo que você pode receber de um povo sem devolver a ele mesmo algo, fazendo-o a outro povo).

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>Sobre os Judeus, Jesus e o Nazismo

>Vim responder aqui a uma questão que me foi proposta por um aluno: Se os Judeus tiveram uma parcela de culpa na morte de Cristo, a perseguição nazista a eles não pode ser considerada um castigo?

Primeiramente, a pergunta começa com uma hipótese que, salvo as considerações pela diferença entre culpa e responsabilidade, de viés estritamente jurídico e filosófico (sendo que da perspectiva jurídica essa “culpa” é, na verdade, dolo), é bem vinda por sua humildade. Considerando que se diz Cristo, e não Jesus, a pergunta assume a prerrogativa cristã de que Jesus foi o Messiah esperado pelos judeus; isso é importante porque a pergunta parece norteada por esse pressuposto.
Os textos neotestamentários parecem demonstrar que houve judeus, da casta sacerdotal, além de Judas (o traidor) e de pessoas do povo, que participaram ativamente ao expressar seu desejo de ver punido ou morto o nazareno, como se dizia.
Enfim, uma vez que não se considera historicamente que os nazistas fossem maioria cristã cerrando fileiras em vingança da morte do Cristo, entendo que a pergunta tem como válida a hipótese da existência de um vingador divino.

Sintetizo, então as hipóteses que embasam a pergunta:

1 – Judeus e romanos foram corresponsáveis pela morte de Jesus
2 – Deus existe
3 – Jesus era o Cristo – o Messiah esperado pelo povo judeu
4 – Deus pode eventualmente castigar aos homens
5 – Deus pode usar alguns como instrumento de seu castigo a outros
6 – Deus pode ter usado os nazistas como instrumentos de sua justiça.

A pergunta, como colocada, parece pedir concordância prévia com as 5 primeiras hipóteses implícitas – o que não sou capaz de fazer. Posso, porém, admiti-las apenas como hipóteses, e não como fundamentadas em fatos. A primeira delas não merece discussão, já que os textos dos evangelhos são explícitos quanto a isso; podemos então considerar, de acordo com esses textos, a hipótese historicamente válida. As demais, no sentido estrito de História, não tem prerrogativa fatual.
Após todas estas considerações, parece inválido, uma vez adotado por mim esse modo de considerar a pergunta, responder à questão. A pergunta pode ser colocada – é logicamente viável – mas a resposta parece, após estas considerações, sem grande valor. Mas não é totalmente inválida se considerarmos o sentido do termo hipótese, e metodologicamente admito válidas essas hipóteses para poder, enfim, tentar uma resposta.

O Nazismo foi aplicado por Hitler para atender às suas ambições por poder, e seu carisma contagiou sedutoramente as massas. Quem não quer ouvir-se dito superior? Poucos. Outra coisa foi que o judeu serviu muito bem de bode expiatório para o inferno econômico em que o povo alemão se encontrava: o judeu era um “outro”, o diferente, o estrangeiro, e principalmente o banqueiro. Como pode, então, ser admitido que “o outro”, “que não é como nós, da raça pura e superior”, usurpe nossas riquezas? Aos fornos com eles! E assim se constrói o início do Holocausto.
As ideias eugênicas são de uma ignorância biológica de tal tamanho que chega à beira do imensurável. Isso não é um pensamento meu, tratam-se de fatos biológicos verificáveis. Além do mais, se Deus aplicasse uma ideia falsa para castigar alguém, não seria estranho?
Tudo bem, essa pergunta não tem tanta força, mas propomos outra ainda: essa pergunta não pode soar propensa a anistiar os nazistas em seus crimes contra a humanidade? Pois se eles foram instrumentos de Deus, por que esse mesmo que os empregou deveria castigá-los (aos nazistas)? E quem castigará os castigadores dos nazistas? Parece um ciclo sem fim, de injustiças para castigar injustiças para castigar injustiças e assim por diante.
Mais uma pergunta pode ser feita: uma vez que os textos do velho e do novo testamentos são explícitos ao dizer que Deus desejaria a morte de seu filho como sacrifício vicário (em substituição) pelos homens, assim como os animais pelos homens eram sacrificados, sendo este o sacrifício supremo que tornaria desnecessário qualquer outro no futuro, por que então ele, que desejou e aceitou a morte de seu filho, empregando os judeus e os romanos como meio, iria depois castigar os de que ele mesmo se serviu como meio?

Por esses argumentos (e lembro que somente pude responder à pergunta considerando hipoteticamente válidas as implicações dela), a ideia de castigo divino aos judeus por intermédio de Hitler e seus nazistas não parece se sustentar.

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>3 – MEU COMENTÁRIO A PABLO E A SUASSUNA

>(O Pablo não necessariamente corrobora o que digo, pois não o havia lido antes desta publicação)

Eu havia escrito uma resposta a Suassuna, mas por descuido a apaguei, e não vou fazer novamente. Sintetiso meu pensamento aproveitando a resposta do Pablo à minha provocação a que escrevesse. É profunda a pergunta que levanta – “As pessoas querem “a música” ou o clima e as oportunidades que elas propiciam?” Comprar “o que [se] quer viver “, como ele diz, é uma boa resposta. As coisas nunca são simplesmente dadas, ou seja, o que aparece, o que está simplesmente diante da mão. Elas são o que nós fazemos delas, enquanto “são para nós”, na nossa relação com elas.
Também penso que, por mais que respeite Suassuna – não por seu nome, mas por sua obra mesmo, pelo homem – essa coisa de “no meu tempo…” Ora, seu tempo foi aquele, este é já outro, e outro século, inclusive. Podemos de fato refletir sobre o sentir pelo sentir, sobre o que Bauman chamou “relações líquidas”, e outro autor, “colecionar sensações”. Entretanto, de que adianta o saudosismo?
O homem é o que tem sido. Essa frase pode parecer vazia, mas é importante, mesmo sem concordar, visitar o pensamento de J.P.-Sartre. Nós não somos, nem seremos, aquilo de que Suassuna tem saudades, nem o de que falava, dia desses, uma professora, numa aula de História Medieval, enquanto se arrepiava indignada contra o adultério (um termo que resiste nos dicionários), contra o “ficar”, as casas de swing. Quando ela reverberou contra “esse lugar a que se vai para dar dinheiro ao proprietário” (como se este fosse o único lugar a que vamos e damos lucro a alguém), todos os alunos que se manifestaram foi em apoio, uns mediocremente puxando saco, outros hipócritas e outros, ainda, virgens de pai e mãe. Faltou começarem a falar contra as termas, os puteiros mesmo! Eu ia começar a rir, e teria de me retirar da sala porque, estranhamente, tenho tido dificuldade em dar atenção a falas pequenas.
O homem não é o que os intelectuais querem, nem o que os moralistas querem; não somos o que o papa, Lula, Sartre ou Sarkozy querem, nem o que Bush ou Obama querem; não somos o que Chávez quer, o que Chapolim quer, o que Freud ou Platão quiseram. Não somos humanos como Suassuna, Lígia (que me enviou o texto), Pablo, eu mesmo ou Irene queremos: humano (sic), digo novamente, é o que temos sido todos – se é que, como indagaria uma filósofa amiga, existe mesmo “o homem”… Mas se existe, só existe em conjunto, a humanidade nos toma a todos igualmente, não é algo qualitativo, é meramente ontológico. Queremos comer, queremos prazer, queremos transar, queremos o livre gozo, queremos rir, queremos uma sacanagem! Com que pompa quase eclesiástica (que um deus me livre!) se fala em “lubricidade”! Essa gente que não goza, que mal-goza, essa gente fala de lubricidade com nojo! Claro está que do termo a fala moralizante sobre a sexualidade se apropriou para seus caprichos. Mas vamos continuar sofrendo e enlouquecendo por reprimirem nossos desejos?
Acredito estamos fartos de inquisições e caça às bruxas. Chega de dizer que o judeu tem pacto com o demônio, que os comunistas comem crianças, que o sexo é um fruto proibido, que masturbação altera o corpo, que estudar demais enlouquece. “Ah! Mas isso é vulgar! Aquilo é fútil!” Vulgar é perder tempo enumerando vulgaridades, apontando dedos. Vulgar é posar de intelectual, de sofisticado, de bacana, e atirar objetos na cabeça das pessoas da sua cobertura no Leblon, ou dizer que os hatianos estão “ferrados, como todos os africanos”, porque “são envolvidos com vodu e macumba”: a fala de um cônsul, com todo respeito! Sofisticado nada mais é que algo a que aplicou-se um juízo sofismático para ludibriar os outros – é o que é a tal sofisticação. Eu não “sou forrozeiro”, gosto de MPB no sentido menos amplo, e portanto não estou defendendo um estilo musical de que goste. Mas o problema, para Suassuna, é a explicitação do desejo. Penso eu que, graças a essa explicitação, muita gente não surta, muita gente não leva suas neuroses aos extremos porque pode rir, falar e fazer graça do sexo que, muitas das vezes, ou não fazem “por obrigação”, ou que não contenta.
Ninguém reclama do poeta que diz: “nós todos animais sem comoção nenhuma, mijamos em comum numa festa de espuma”. Por quê? Porque tem nome, como Ariano Suassuna. Por que foi legal dizer que “ele ‘tá de olho é na boutique dela”, mas não se pode dizer, décadas depois, “Nabu, ‘cê ‘tá gostosa”? Porque alguém teve uma chamada “licença poética” – algo que nem mais existe, na verdade, mas todos ficam repetindo para explicar quando um Paulo Coelho escreve qualquer coisa, do alto de sua imortalidade (não estou, e JAMAIS pensaria em tal coisa, comparando este senhor ao grande Suassuna). Deixemos que os outros sejam felizes com a música e o forró que quiserem. Eu compro o que quero viver: Paulo Freire, Sartre, Playboy, mangás, jornal O Globo, Folha, Callado, Zé Celso, cordel, Jorge Amado; leio contos eróticos mentirosos, escrevo porn falsos e verdadeiros; leio Foucault, Sade, a Bíblia, Heidegger, Suassuna, Asimov, Machado. Mas também poderia ler Mein Kampf, se tivesse estômago, ou A Bíblia de Satanás: ler não significar anuir. Por que os outros não podem fazer o que querem também? Às vezes, o inferno não é os outros, nós é que o somos: infernais para os outros e para nós mesmos.

Vando Juvenal, agora assinando Omar Telos no site da Naiara: http://www.satorilivraria.com.br 17 de Março de 2010

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>2 – De quem é a culpa?

>(Resposta do Pablo a Suassuna)

Todos nós sabemos que empresários investem em uma banda para ganhar dinheiro, eles não estão preocupados com a história da banda, com qualidade musical, e muito menos [com] merecimento; basta apenas uma possibilidade de ganhar dinheiro além do investido.
Por que dá dinheiro? As pessoas compram coisas (“músicas”) que lhes parecem boas, legais, “do momento”. As pessoas querem “a música” ou o clima e as oportunidades que elas propiciam? Tudo isso é apenas um ciclo. O empresário vê a oportunidade, as bandas produzem o que lhes é mandado, e o povo compra o que quer viver.

Pablo Lima, 06 de Fevereiro de 2010

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